Crônica – O Colecionador (2)

Sou um colecionador. Coleciono angústias, paranóias, frustrações. Coleciono também contas a pagar, poesias escritas em pedaços de papel que nunca irão ler. Sou um colecionador. E também coleciono desamores e incompreensão, estas as peças mais coloridas e doloridas de minha coleção.

Um dia colecionei selos, discos, livros… Tantas coisas que nem cabiam dentro de casa… E aí sai de casa e deixei minha coleção àqueles que tinham a mim como apenas uma das peças empoeiradas de sua coleção. Fui colecionar copos de bebidas, mas nunca os tinha tão cheios que pudessem ser colecionados. E colecionei bebedeiras e amantes bêbadas e dopadas de remédios e drogas. Colecionei tristezas também, porque ninguém coleciona noites sem acordar de ressaca de decepção. Coleção de dores de cabeça, no corpo e na alma. Foi justamente nessa época que aumentou, e muito, minha coleção de dentes quebrados, ossos partidos, mordidas, beijos, chupadas e cicatrizes.

E também colecionei teimosias, medos, receios. Nem cabia na minha estante de colecionador. E todas essas coleções foram catalogadas em forma de poemas, contos, cartas, crônicas. Disseram que eu era um poeta e, portanto tinha que colecionar de tudo, mas a maior coleção que tem um poeta é a de nada. Uma imensa coleção de “nadas”

E comecei então a colecionar letras, depois palavras, transformando a elas em enormes coleções de versos. E juntando minhas coleções particulares de “nadas” às públicas de letras, palavras e versos, terminei como um dos maiores colecionadores de sonhos que a humanidade conheceu.

29/07/2012 – 4:56 da Manhã

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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