Crônica – O Crime Não Compensa! (A Poesia Também Não!)

“De que está rindo, Martini? Você não é um louco, é um pescador!” – Randall P. McMurphy

O crime não compensa! A poesia também não! Em compensação… O crime é desnecessário… A poesia também. Poetas podem até ser criminosos, mas criminosos nunca serão poetas; e se isso é uma afirmação ou uma pergunta, depende da sua interpretação. Há poetas nas celas, pagando por crimes que não cometeram; há criminosos nas ruas pregando a poesia que também não cometeram. Poetas e criminosos são culpados ou inocentes; e isso também é uma pergunta ou uma afirmação, dependendo do tamanho da pena que imputas a cada um, Senhor Juiz. “O amor é a compensação da morte”… E a poesia, é a compensação do crime; e agora não é nem uma pergunta e nem uma afirmação, é uma metáfora. E as metáforas não são criminosas, como as realidades não são poéticas.

Mas antes que eu adentre a cela, preciso saber, tal um personagem Kafkiano, de que crimes sou acusado.. A que penas fui condenado eu já sei, mas ainda não sei se a prisão é perpétua e também não conheço a acusação. Quero um advogado, um tribunal sem exceção e um júri sem corrupção. Andem com esse processo que eu tenho pressa, preciso ainda escrever um romance antes de morrer. E posso jurar, até em nome de um deus em quem não acredito, falar a verdade, somente a verdade e nada além da verdade, sob pena de perjúrio, que nenhum crime cometi. A verdade, somente a verdade, é que a verdade é que eu menti quando disse que nenhum crime cometi, pois sou poeta e ao escrever um poema cometo crimes sem perdão.

E meus crimes não são pequenos, são crimes hediondos, e para que seja feita justiça mereço ser jogado a mais fétida das celas e esquecido pela multidão. Sou réu confesso, sim sou culpado, Meritíssimo. Culpado de ser poeta, culpado de minha inocência, culpado por atirar sem remorso nas cabeças dos tolos inocente, estourando-lhes sem pudor os miolos. Sou culpado de não ter culpa, culpado de não culpar a ninguém por minha culpa. Sou culpado!  Então acabemos logo com esse julgamento e me jogue de uma vez dentro da cela junto aos mais perigosos criminosos. Pois sei que a poesia não compensa…

Porque insisto nessa pregressa vida de crimes? Crimes sem perdão? O criminoso busca o quê, com seus crimes? E o poeta com os seus? O que buscamos, nós os poetas e criminosos? A alma das pessoas? A glória de ter cometido nossos crimes? A satisfação dos mais sórdidos desejos que habitam a mente humana? O desejo de imitação dos deuses, tendo em nossas mãos as vidas das pessoas? O que buscamos, além da satisfação pessoal, do desejo carnal e da glória banal, dos recortes de jornal, dos programas vespertinos de televisão? O que buscamos, nós poetas e criminosos, com nossos atos? A impunidade nos alimenta, a corrupção nos compra e a morte nos une.

Estamos ambos mortos desde o nascimento e, portanto não damos atenção às regras. E sempre, mesmo que ainda pelas ruas, acabamos presos.  Dentro de nós mesmos, dentro de nossos medos, aprisionados pelos nossos inconfessáveis segredos. Prisão perpétua, domiciliar, a pão e água. O crime prescreve ao longo de um tempo, mas a poesia nunca prescreve. Poesia não prescreve, poesia é proscrita. Crime inafiançável. Poetas são ladrões de sentimentos, assaltantes de angustias e falsários de dores. Poetas, entretanto não matam, apenas o tempo que lhes consome dentro dessa perpétua prisão. Somos idênticos, afinal, pois trabalhamos contratados pela mesma senhora e, cada um a seu modo e com sua arma, executa o serviço ao qual foi contratado. É a morte a nossa senhora e a ela servimos como mercenários vorazes, cumprindo nossa missão. E no fim sabemos que a morte não nos dá nenhuma compensação, a não ser a sensação de que para com ela cumprimos nossa obrigação.

20/11/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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