Crônica – O Feijão, A Barata e O Sonho

“Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só
mas sonho que se sonha junto é realidade” – Raul Seixas

 Há mais de 20 anos quando, ao menos no Brasil, nem se sonhava com Internet, decidi que minhas poesias tinham que deixar as caixas de papelão que lhe serviam de abrigo e onde elas serviam de alimento para baratas tinham que ser publicadas. Assim, imaginei, poderiam se abrigar em outras mentes e servir de alimento a outros seres, especialmente humanos

Passei semanas datilografando, mimeografando, grampeando, etiquetando e remetendo os livrinhos.

Tinha 20 e poucos anos e muito idealismo e ilusão: acreditava estar colaborando numa revolução.

Tecnicamente o livrinho, com 50 poesias era muito pobre, poeticamente não sei, isso é relativo e totalmente subjetivo. Mas o que me entristeceu e fez com que durante quase 20 anos eu não escrevesse mais nenhuma linha, foi o comentário de um auto-proclamado “poeta” que editava seus livros em caro papel cuchê: “Eu não acredito em arte pobre!” Arrematava meu algoz após tecer inúmeros comentários sobre a dificuldade de ler, as rebatidas de máquina etc..Nenhuma palavra sobre o conteúdo.

Aquilo foi meu balde de água fria e pensei que já que arte era coisa pra rico, eu estava fora dela. Deixei de escrever, casei-me, tive filhos, plantei árvores, mas o livrinho foi sumindo, mofando e servindo novamente servindo de alimento para as baratas. Em 97, já na era da Internet senti a necessidade de escrever e cometi alguns poemas.

Nesta época, peguei este e algumas outras coisas, como alguns poemas do Arquíloco que ainda estava legíveis, mais uma letras do Raul, e decidi novamente que as baratas não iriam mais se alimentar do produto do meu cérebro e então construí meu primeiro site na Internet. [LINK:”http://www.geocities.com/SoHo/Cafe/3114].

Depois de alguns dias, descobri um site chamado “Jornal de Poesia” e enviei um E-Mail ao responsável com o “subject”: “Minha página tem poesia!”. Para minha surpresa, recebo, depois de comentários altamente “técnicos”, acompanhados de verbetes do “Aurélio”, a respeito dos fatos: 1- eu ter grafado a palavra “buceta” com “u” 2- a conotação de baixo calão do substantivo. O responsável retirou de si próprio qualquer conotação homossexual afirmando gostar da dita cuja e solicitou que eu não fizesse parte de seu jornal. Depois de enviar-lhe um E-Mail colocando minhas posições, engoli em seco e decidi que nenhum outro animal de sangue frio iria matar meu sonho.

Como o tempo não para e as baratas não param que querer mais papel para devorar, passei a escrever novos textos e a publicá-los naquele site. Coisas que eu sentia e não mais apenas poesias, mas textos.

Mas apenas no início de 2000, quando dei a luz a “A Barata” é que resolvi que queria escrever novamente. E foi o que fiz. E é o que faço! Não sei, nem me interessa saber se escrevo bem ou não. Escrevo por prazer e por necessidade. Sem sonho de ser artista.

Também não tenho nenhuma pretensão intelectual, nem de parecer inteligente. Apenas escrevo porque gosto e preciso! Escrevo porque é preciso e gosto! E gosto porque preciso! E preciso porque gosto!

Se minha arte ainda é pobre? Pergunte aos ricos! Se escrevo bem? Pergunte aos críticos! Se alguém lê? Pergunte a você mesmo! Se causa algum efeito? Idem! Se é bom? Pergunte às baratas!

Sei que, como o personagem de Orígenes Lessa em “O Feijão e o Sonho”, eu acredito no meu sonho acima até do feijão, sacrifico minha vida e daqueles que amo por acreditar nele. E isso é o que hoje me mantém vivo. A tinta da caneta vermelha que uso para escrever é o meu sangue. E o que meus textos não irão mofar em meu cérebro ou em caixas de papelão… que minhas poesias não mais servirão de alimento às baratas…As baratas agradecem!

12/15/2000

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

5 1 Vote
Article Rating
Assinar
Notificação de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários