Crônica – O Homem Que Lia Livros

Quando comecei a pensar começaram as dores… E dia a dia elas eram mais fortes, mais intensas… E hora a hora eram mais angustiantes e lancinantes. Sim, foi quando comecei a pensar… Quando aconteceu? Não lembro, mas desde que lembro de alguém se referindo a mim como “chato e ranheta”. Acho que tinha uns cinco anos de idade… E depois disso apareceram muitas outras dores. As do crescimento, da fimose arrebentando, do coração partido em centenas de pedaços, do casamento… Foram e chegaram essas e outras dores, mas nenhuma era tão forte quando aquele que eu sentia ao pensar. “Pensar não dói!” Falam os tolos. Claro, o ato físico de pensar não dói, mas o pensar é dolorido.

E começaram a aumentar as minhas dores. E quanto mais eu pensava, mais me doía, mas latejava, mais sangrava. E quando comecei a ler, numa fútil e inútil intenção de relaxar, e assim fazer com que as dores diminuíssem, foi que elas aumentaram. E muito. E quanto mais eu lia, mais dores eu sentia. A cada novo livro, uma fisgada, uma câimbra… A cada novo autor conhecido, cada idéia absorvida, era como se fossem facas cortando meu cérebro. E doía. Doía muito, sim.

Mas eu não conseguia parar… Parar de ler, parar de pensar. Sonhar era a decorrência e era o que aliviava um pouco a dor. Sabia que esses sonhos eram consequencias daquilo que eu lia e pensava. E lia e pensava, e pensava e lia. E a então doía!!! Uma época então tentei parar de ler, parar de pensar, pensar em ler… Doía!! Mas tal e qual um masoquista que afaga sua dor, eu não conseguia ficar longe do ler e do pensar… E desisti de não querer sentir dor. Mas desisti de pensar que era dor. Passei a fingir que era fingimento aquela dor que eu sentia, como escreveu o Pessoa. Algo assim.

E quanto mais lia, mais queria. Quanto mais lia mais doía! Entendia, de fato, que as dores são do cérebro trabalhando, da minha mente que lia perante o mundo. As dores do mundo me consumiam.. Dia a dia… E doía! E com a dor a tristeza me corroia, rastejando por entre os buracos do meu crânio feito insetos carnívoros. Roíam e roíam… E doía! E eu sabia por que doía! Porque doía a inércia, a falta de talento à guerra, a inabilidade com as armas, o pudor com a política. E mais eu lia. Sobre tudo. E sobre tudo, tudo em mim doía.

As folhas dos livros cortavam meus dedos e então doía. E mais ainda eu lia. Eu não sabia, mas quando mais eu sabia, mas me doía. E eu fingia, tingia de cores as negras manhãs, sorria amarelo e o dente doía. O mundo era uma merda e tudo mais fedia! Eu não conhecia, mas era o mundo inteiro que fedia! O todo o mundo de mim ainda sorria.. E isso em mim ainda mais doía!

 

Pensei de novo em parar. A dor eu não mais queria. Pura covardia! Mas por minha sorte ou daqueles que não sabem e nem sabiam, meus pensamentos doíam; e nas entrelinhas as letras miúdas as grandes se liam. As letras maiúsculas as minúsculas engoliam. E elas gemiam! E pediam: mesmo que doa, mesmo que sangre, leia! Mesmo que morra, mesmo que feda, leia. E eu lia, porque sabia que a dor era apenas a compensação de uma morte que eu ainda não queria.

01/08/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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