Crônica – O Maior Artista do Mundo

Nunca consegui ler diretamente na tela do computador; muito menos escrever usando o teclado. Mesmo antes dos computadores, meus textos e poemas eram rabiscados em papel sempre usando lápis ou caneta vermelha.

Tenho alguns rituais e posturas para escrever que tornariam impossível fazê-lo usando diretamente o computador. Por exemplo gosto de escrever deitado de bruços ou com o papel apoiado contra a parede: imaginem uma cena ridícula substituindo um caderno por um computador. Geralmente minhas idéias ocorrem caminhando ou dentro de ônibus, quando não se tem, nem se pode fazer outras coisas.

Portanto sempre carrego comigo um caderno e duas canetas vermelhas, até em lugares inusitados como jantares e churrascos. Ali anoto minhas idéias, textos, poesias, lembranças, contas a pagar etc. Meu caderno é uma espécie de diário de bordo de minha vida.

Gosto do contato com o papel, o riscar e não “deletar” uma palavra errada. O barulho de uma folha amassada quando a inspiração não chega ou não é boa é um verdadeiro som de desabafo. Gosto de pensar na origem do papel, da árvore, da celulose. Gosto do barulho do lápis lixando e pintando de preto o contorno das letras que formam palavras, frases e rimas. Gosto de usar caneta vermelha para escrever pois parece que é meu sangue que escorre das veias pela caneta e lambuza a pele branca do papel, como um punhal que desliza e corta branca e sedosa pele.

Sempre peço a alguém para digitar, odeio ler meus textos e poemas depois que os escrevo, primeiro porque ao terminá-lo ele deixa de me pertencer e passa ser de todos aqueles que os lêem; segundo porque como tenho mania de perfeição, sempre terei a tentação de “melhorá-lo” cada vez que os ler: aí foi-se o momento da criação, o instantâneo, a fotografia da inspiração.

Sempre gostei de escrever, sim. Dizem que a todo ser humano é dada a faculdade de uma arte e como tentei ser cantor, musico, ator, jogador de futebol e outras artes sem qualquer aptidão, acho que só me sobrou esta, mesmo.

Não que eu ache que sou bom nesta arte, mas também não busco o egoísmo da glória, pouco me importa, pois o que tento mesmo é provocar, com meus garranchos rubros dos sentimentos e pensamentos que se debatem dentro do meu cérebro, outros sentimentos e pensamentos. E acaso consiga despertar em uma única pessoa sentimentos e pensamentos poderei me considerar o maior artista do mundo. Caso contrário ainda posso tentar ser carteiro ou engraxate…

7/30/2000

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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