Crônica – O Que Nos Espera?

Ainda espero o retorno de um amigo, uma ligação perdida, uma ligação não atendida. Ainda espero que alguém leia minhas poesias, que fale sobre uma crônica; que compre um livro meu e que aceite uma dedicatória. Ainda espero um toque na campainha ou palmas no portão: “Ô de casa!” Ainda espero um abraço filial, agradecimento vital e um café matinal com pão com gergelim. Ainda espero a comida, ainda espero pagar minhas contas. Ainda espero, e espero, espero…. Minhas gatas ronronam e querem apenas um afago. Apago o cigarro e meus dedos desaparecem naqueles pelos macios. Elas não esperam nada a não ser um afago. Pago, não pago, esqueço a dor de estômago e a angustia e elas sorriem com seus miados. A casa é gelada, o sol não  aparece na janela. Quero o Sol nascente, um sol descente e a Lua é apenas um reflexo de mim. Sou lunático, canceriano, mas não acredito em horóscopo. Tenho medo da noite e o dia não compra meu sossego. A angustia me consome e eu fumo dezenas e dezenas de cigarros por dia em busca do calor. “Aguenta firme, Poeta, que o mundo acaba logo, antes do fim do ano”  E ainda espero o fim do mundo, espero o mundo… E o fim. Quem pensa por mim? Não quero choros nem velas e nem fitas amarelas gravadas com os nomes delas. Ainda espero e espero… Mas que tanta espera é esta que sentado não cansa? Quem espera nunca alcança e a esperança é a única que morre. Não espere por mim nem de mim. Não espere. Não perca por esperar e nem espere por perder. Quem perde nunca espera… Perder.. E eu espero… Sentado na porta da cozinha, as panelas estão vazias e eu não sei o que mais esperar. Um robô mijou na esquina e era gasolina que escorria. Alguém tem um fósforo? Acendo e corro. Fogo eu não apago, fogo eu afago! Queima! Minha cabeça queima e teima em pensar e não consigo caminhar. Minhas pernas estão cansadas e doem demais. Pesam toneladas! A idade não pesa, o que pesa é a dor da exclusão. Sou sensível à insensibilidade. E ainda espero. Daqui a pouco chega minha mulher do trabalho, sempre com um beijo nos lábios e a esperança nos olhos. Ela tem olhos lindos, cheios de esperança que eu não quero sepultar. Espero! Ela acredita, ela tem fé e a fé é o que a gente é. É? Espero que seja! Ela conta que sempre esperou por mim e eu lhe conto sobre o que espero de mim. E sei que o que ela espera é apenas ser feliz… E eu não sei o que é esperar. As gatas miando, caminhando sobre o teclado e eu acho que elas são felizes sem esperar nada a não ser comida, água e um chamego. As gatas são felizes? Agora preciso parar de escrever, lavar a louça e deixar os pratos limpos e prontos para o dia que tivermos comida para colocar dentro deles. Ah, mas ainda temos computadores e Internet, então não precisamos comer… Drogas não nos faltam. E ficamos aqui nos olhando e pensando sobre o que esperamos da vida. E ela, o que espera de nós? A vida está do lado de fora da porta e não atendemos a campainha “Ô de casa!”, grita ela, e nos trancamos, passamos o ferrolho na porta e esperamos que ela se vá. Que nos deixe aqui, quietos a frente de nossos computadores, vivendo… Esperando viver! O que nos espera?

22/10/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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