Crônica – O Que Outros Chamam de Vida e Eu de Existência

Há momentos na vida da gente que… Ah, há muitos momentos na existência, que não chamo de vi… Não, chamo de existir o que não se completa, porque de vida nunca chamarei. Outros chamarão a minha de vida quando eu não mais existir, e enquanto a deles está incompleta. Eu já escrevi muito, definindo metaforicamente a vida como uma Universidade em que o Diploma é a Certidão de Óbito, e assim continuo. A cada dia matriculado num curso novo, mas sem certificado de conclusão de nenhum. Jamais serei formado, e principalmente nunca mestre de nada, menos ainda de ninguém. Nem de mim. Sou esse ser, que assume sua mediocridade diante de tanta superioridade. Minha superficialidade em meio a tanta intelectualidade. Sou o tosco, o enrosco da curva de rio, então rio, quero dizer dou risada, da sua casta, tão vasta e tão imersa em seu próprio líquido amniótico, enquanto, simbiótico, gótico e erótico, mofo junto com as traças, nas desgraças da evolução. Nasci para ser devolução. Produto com defeito de uma linha de produção. Em massa, a desgraça da industrialização; a graça da institucionalização. Cavo buracos com a mesma profundidade da minha altura, mas com o cuidado de descontar do pescoço para cima, que não sou bobo e a corte não me paga como bufão. Escravo das minhas sortes lançadas ao mar feito garrafas de náufragos. Nas minhas há poemas que escrevo bêbados, como pedidos de socorro, de perdão ou de tesão. Eu existo, minha ilha é dentro de mim, e eu não sou nada mais e nada menos que um oceano. Eu, que não chamo de vida o que outros chamam de existen…


18/07/2021

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

DEPOIMENTO

Está perfeita essa síntese de uma vida, muito rica em detalhes em fatos, cenários, gente e personagens. Não é qualquer um que pode olhar para trás e ver que construiu, mesmo nadando contra a correnteza, uma história de abnegação a arte, respaldada pelas forças libertadoras da poesia, da música via rock and roll e do cinema, com seus (anti)heróis e heróinas, a maioria deles já mortos, e alguns poucos vivos -- noves fora os que nos matam de vergonha --, resistindo a certas modernidades obscenas disseminadas pela internet, que fez bem em não ter existido nos primeiros 30 anos de vida de Barata Cichetto, um poeta resistente desde sempre. O que dizer agora? Let´s roll!.
Genecy Souza
Manaus - AM
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