Crônica – O Sofá-Cama Vermelho (Ou As Mulheres Preferem os Espertos)

Nunca fui esperto! Desde garoto. Tinha colegas de escola espertos, colegas de rua espertos. Mas eu mesmo, nunca fui esperto. E eram eles, os espertos da escola que batiam em mim e nos outros também não espertos. E os da rua, esses me escalavam como goleiro do time, mesmo que apenas um par de tijolos bastasse. Mas eu não tinha inveja dos espertos, tinha raiva. Poderia ter inveja, porque eles sempre conseguiam garotas e eu não. Mas não tinha inveja, tinha ódio mesmo. Porque eles trapaceavam, colavam em provas, amedrontavam professoras – apesar de muitas se sentirem atraídas e seduzidas por eles. Eram violentos, sacanas e além de zombar dos mais pobres, feios e sujos, eram malvados, mesmo. Geralmente os espertos tinham mais dinheiro, mas isso não era regra, pois conheci muitos espertos pobres.

Quando cresci em tamanho e idade, era o maior da turma, mas nem por isso me tornei o mais esperto. Não sabia ser e por momentos tive raiva de mim por não ser. Queria as vezes ser como eles, se divertindo com tudo na vida, trapaceando e levando sempre vantagem em todas as situações, comendo todas as virgens e putas da escola e da rua. Mas eu não sabia ser esperto. Não conseguiria mesmo, mesmo que quisesse. As meninas gostavam dos espertos, se sentiam protegidas por eles.. Protegidas? Era o que elas passavam, que tinham medo e os espertos as protegiam. Mas medo de quem, se eram eles, os espertos, os violentos, trapaceiros e até mesmo estupradores? Seria medo dos não-espertos como eu? Ah, realmente nunca entendi as mulheres…

Não, eu nunca fui esperto, e sequer era bom em nenhuma espécie de esporte físico. Era uma lástima em futebol, basquete, handebol, qualquer um. Sempre achei que os esportes exigiam, além de preparo e aptidão físicas, uma certa dose de esperteza… E não acredito que essa opinião tenha mudado, porque todos os esporte competitivos exigem, sim, uma grande dose de esperteza, de malandragem.. Mas eu ia bem na escola, era o melhor da turma e, quando descobri que dentro de um antigo sofá-cama, existiam livros e revistas, me tornei não esperto, mas algo que os espertos de qualquer natureza ou forma nunca poderiam ser:  um ser pensante. Desde “O Magistrado” e a biografia de Alexander Hamilton, herói da independência americana do norte, os primeiros livros com cheiro de mofo e lotados de traças que encontrei no bojo naquele sofá-cama vermelho nunca mais parei.

Mesmo que de família pobre, nunca coloquei empecilhos a adquirir livros, andando quilômetros a pé para fazer entregas, deixando de comer lanche na escola e mesmo de ir ao dentista, para guardar o dinheiro e comprar livros e depois discos e revistas. Era meu tipo de esperteza, acredito. Mas sempre fui solitário e tímido, e nenhuma pessoa com essas características é um esperto. Espertos precisam estar em grupos para, ou criar escudos protetores às suas ações, ou para ter uma platéia que as aplauda. Espertos são egoístas na essência.

Mas minha falta de esperteza, aliada à timidez causaram grandes danos à minha cabeça. Eu era o sujeito que não comia ninguém, que sempre pisava nos pés das garotas nos bailes, que nunca ia a festas. Não era mesmo nem um pouco esperto e as mulheres sempre gostaram dos caras espertos. Eu nunca entendi mesmo as mulheres e só me restava ir em busca das putas. Estas sim, embora também gostassem dos espertos da mesma forma que as meninas das escola, eram mais tolerantes com os não espertos. E estes tinham e lhes davam aquilo que os espertos jamais poderiam lhes dar: atenção e carinho. Sim pois espertos não dão atenção e carinho a ninguém a não ser a si próprios. E a elas eu era não esperto, mas especial, com minhas histórias lidas nos livros, com minhas poesias, com meus carinhos gratuitos. E era o que no fundo elas mais queriam: algo gratuito, pois dinheiro elas recebiam pelo sexo com os espertos. Comigo, o eterno não-esperto era de graça, éramos de graça.

A partir de então, devorando livros e discos, nunca mais parei de pensar, de buscar ser  melhor a mim mesmo, e portanto melhor àqueles que comigo convivessem. Mas, os espertos e as espertas estão por toda parte. E tive mulheres espertas, que zombaram de mim, que me traíram, que me violentaram com suas mentiras. Eu nunca fui mesmo esperto e me quedava ao silêncio das minhas poesias, que eram rasgadas, me quedava ao silêncio da leitura, que era quebrada por gritos. Nunca fui esperto…. E realmente nunca entendi as mulheres… Que sempre preferiram aos espertos…

Realmente, nunca aprendi ser esperto. Agora que passei dos cinquenta anos então… Aqueles amigos de escola e de rua, sempre espertos estão por aí, sempre mais espertos. Criaram uma prole de crianças espertas e estão dominando o planeta com sua esperteza. São a maioria no mundo, e como apregoa um antigo dito popular “o mundo é dos espertos”.

Quanto a mim, continuo a não ser esperto, não existe mais o sofá-cama vermelho, muitos dos meus livros foram perdidos e outros achados. E continuo a não entender porque não apenas as mulheres preferem os espertos.

20/08/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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