Crônica – Onde é Que Está Meu Racumin?

Eu, que sou paranóico, que acredito em todas as teorias de conspiração, mas que não acredito em deuses, igrejas e santos. Eu, que espero apenas acabar o que outros começaram: a minha existência. Eu, que não acredito em tradição, família ou propriedade, nem na santa igreja católica, nem em marias nem em jesuses. E não acredito na remissão dos pecados, nem na vida eterna amém. Nem além e nem aquém. Eu que não creio, que acho tudo incrível. Eu que não deixo nenhum bem, mas também não deixo nenhum mal. Eu que ando, eu que caminho, eu que sei por onde ando a caminho do nada. Eu que não sei nada sobre o nada e muito menos nada sobre o tudo. Sobretudo, não sei de nada. Porque nada mais preciso saber. Não quero um copo de nada, os copos deixem vazios. Os corpos também. Não ateiem fogo às vestes, deixem grassar as pestes. Eu, eu que não acredito na evolução humana, nem no fim do mundo. Que não acredito em morte, e que acha que a vida não vale a pena viver com tanta diferença e tanta ignorância. Eu, que não mato baratas, que não gosto de macarrão e adoro beber água com limão. Eu que não espero por Godot, por Brecht, nem por ninguém. Deixei tudo para trás por nada nem por ninguém. Por nada! Obrigado. Obrigado por nada. Por nada, obrigado! Obrigado. Por nada! Escrever poesia é fácil, dificil é ser poeta. Ser homem, meu querido Charles Alemão, é fácil demais. Quer um autógrafo no meu livro? Ah, desculpa, não sei escrever! Outra noite sem dormir. Outra! Não tomo remédios pra dormir, o Racumin está escondido no armário da cozinha. Quem haverá de entender o desespero, afinal? Não espere, desespere, que ninguém compreende. Desistir ou resistir. Preciso decidir isso logo e ir dar comida às minhas gatas. Elas esperam isso de mim. Não a comida, mas minha decisão.  Ontem li uma poesia que era uma declaração de morte ao próprio poeta e não fiquei sabendo se ele deu um tiro nos cornos ou ficou famoso depois de suas dez tentativas. Fotografou a si mesmo e colocou no Facebook a foto com sua própria cabeça enfiada no forno do fogão. Não sei se morreu ou se era apenas uma montagem. Bobagem, isso sim! Bobagem isso, sim! E eu com isso? O importante é que não encontro o envelope de Racumin. Silêncio na noite. As gatas dormem e minha cabeça arde. Onde anda a merda do Racumin? Adoro escrever merda pra inglês ler e dinamarquês sofrer. E foda-se quem não gosta. Eu acabei esquecendo onde guardei a caneta, agora tenho que parar de escrever. O rascunho. Um monte de palavras que podem não lhe fazer o menor sentido, mas é o que tu tenho sentido. “Posição de sentido”, bradou o Coronel à Companhia. “Alto!” Sou maior que eu mesmo e menor do que todos nós. Juntos. Eu? Não sei! “Onde é que está meu Rock’n’Roll?” Eu gosto do Alice Cooper, não gosto mesmo é do Arnaldo Baptista! Onde é que está meu Racumin?

Dei comida para as gatas!

Acabou! Achei!

31/10/2012

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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