Crônica – Pequenos Ditadores

– Do alto de seu banquinho de plástico, o cobrador do ônibus declara solenemente, apontando a placa de “Troco Máximo”, que não tem troco para o dinheiro que você lhe deu para cobrar a passagem.

– Do alto de uma cadeira de madeira escura, que normalmente acomoda apenas um paletó, o funcionário da repartição pública declara solenemente apontando a placa onde está escrito que “é crime destratar funcionários públicos”, que o formulário que lhe custou uma enorme dor de cabeça e dinheiro, tem uma letra errada.

– Do alto do estrado de madeira colocado estrategicamente atrás do balcão para que ele aparente mais alto, o balconista da padaria aponta uma placa de preço e lhe serve um café requentado com pão velho com as mãos sujas e um desprezo total.

– Atrás do volante de um carro, muitas vezes caindo aos pedaços, o motorista berra, apontando o semáforo mas ignorando a faixa de pedestre após quase lhe atropelar, quando você tenta apenas atravessar uma rua a pé.

– Atrás de uma caneta e uma porção de livros, o médico declara solenemente, apontando a imagem de uma enfermeira e a frase “Silêncio!”, que sua vida de nada vale se você não pagar em dia o seu Plano de Saúde.

– Atrás de um altar ou púlpito o religioso, apontando solenemente um livro sagrado ou uma imagem de santo, declara solenemente que você irá ao Inferno caso não pague seu dízimo a igreja dele.

Estas situações retratam o quanto o poder ataca todas as pessoas: o banquinho do cobrador, a cadeira do funcionário, o balcão do copa, o carro do motorista, a caneta do médico, o altar do religioso, parecem se transformar em tronos de imperadores-ditadores onde suas ordens devem ser cumpridas sem discussão. Eles detêm um poder infimamente pequeno, mas acreditam que pela posição que ocupam, lhes faz acreditar que são poderosos.

Egoísmo, falta de fraternidade etc., podemos chamar do que quisermos essas atitudes, mas a realidade é que quando a maioria de nós é colocado numa posição de pequeno poder acreditamos que somos poderosos e nos transformamos em ditadores. A maioria dos cobradores, funcionários, copas, motoristas, médicos e padres agem de forma totalmente diferente longe de seus “instrumentos de poder”, principalmente quando estão do outro lado da mesa, cadeira, altar, caneta etc..

Porque isso acontece? Um dia em conversa com um grande e muito culto amigo, este dizia que o motivo de todos os atos da humanidade era o dinheiro. Então lhe declarei (sem apontar placa alguma) que as pessoas faziam tudo apenas e tão somente pelo PODER, e que o dinheiro era apenas o instrumento necessário para este fim. Vendo que meu amigo não se convencia disto perguntei-lhe: – Para que você quer dinheiro? – e ele me respondeu: – Para poder…OK, já entendi! e passou a me dar razão.

As atitudes do cobrador de ônibus e do funcionário público não são movidas, de forma nenhuma, pelo dinheiro, mas pela ilusão de poder que seu “cargo” lhe dá. Desde os pais que parecem gostar de exercer, e se sentem na obrigação disso, sobre os filhos, até os chefetes de empresas, todos são na verdade tiranos em determinados momentos e vítimas em outros, numa relação sado-masoquista que todos parecem gostar ou ao menos achar que é necessária à sociedade.

A espécie humana em sua “bem organizada” sociedade gosta desse jogo de gato e rato, mas até que percamos o tesão e o deleite pelo poder, até que deixemos de nos corromper por um prazer mesquinho e egoísta que satisfaz apenas nossos egos, até que, enfim, deixemos de ser pequenos ditadores, a espécie humana continuará numa barbárie e as desigualdades sociais continuarão. Pois das pequenas guerras domésticas aos maiores conflitos mundiais o motivo é sempre o mesmo: a busca e auto-afirmação do e pelo poder, que exige sempre mais. E isso significa mais e mais impingir sofrimentos uns aos outros, dependendo de que lado da mesa se está no momento.

Porque a única diferença entre cobradores de ônibus, motoristas, padres, funcionários públicos, médicos etc. e muito etc. e um ditador sanguinário é apenas uma questão de local e circunstância.

8/20/2000

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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