Crônica – Pulso

Primeiro a inspiração,o texto, o poema, a noite sem dormir, a cabeça latejando, a mão que segura a caneta e o pulso que dói deslizando sobre o papel. E o coração quase parando de pulsar. Pilhas e pilhas de papel rabiscado com o desejo de sacudir e muda o planeta; os olhos quase saltando das órbitas e o planeta girando na sua.

Depois a máquina de escrever, de ferro, teclas duras, stencil, os dedos quase sangrando de apertá-las centenas, milhares de vezes, dando forma ao texto ou ao poema concreto ou não, feito de barro ou de cinzas – feito do barro das ruas pobres e das cinzas de amores perdidos. E o pulso dói e o coração ainda pulsa! E uma pilha de stencils prontos: os textos e poemas tomaram sua forma quase final.

Agora é o mimeógrafo. Álcool, stencil azul preso ao rolo, a manivela girada a noite inteira; 30 páginas, 100 exemplares, 3000 vezes precisava ser girada a manivela. 3000 tiros que iriam destruir o sistema. Linha por linha, página por página e o pulso dói de girar a manivela e o coração quase pára de pulsar, o sangue azul da tinta do stencil quase entupindo as artérias e o coração pulsa desesperado. Pilhas de papel.

Lou Reed e Jethro Tull rolando em um “três-em-um” surrado mas bom o suficiente para oferecer a trilha sonora do apocalipse que estávamos prestes a deflagrar com nossas obras, pois afinal depois daqueles textos e poesias, a sociedade jamais seria a mesma. O pulso doendo de tirar e colocar os discos no prato do toca-discos e o coração pulsando forte a cada novo som tirado da flauta mágica de Anderson ou das esquinas escuras de São Paulo ou Nova York.

Certo, depois o sofá e todos os móveis da sala cobertos de folhas de papel que eram ordenadas e separadas para formar os conjuntos e o pulso dói de tanto separar papel e  coração quase pára de pulsar de tanta excitação. Uma pilha de exemplares, o grampeador e o pulso dói mais ainda ao grampear aqueles blocos, 3 grampos, 100 exemplares; 300 pancadas no grampeador. E o pulso dói e o coração pulsa aos pulos de satisfação: o arsenal está pronto, a guerra começa agora…

Ah, ainda não. Ainda tinha que colocar nos envelopes e escrever as etiquetas, uma a uma, cada uma a um amigo-soldado distante. E o pulso dói de fechar envelopes e escrever e colar etiquetas. E o pulsar do coração ninguém prestava mais atenção, pois o que importava era mesmo o estopim da nossa revolução. Aqueles textos podiam mesmo provocar o suicídio em massa dos poderosos e o coração pulsava quase explodindo de excitação e o pulso doía mais ainda de ter que carregar aquele monte de envelopes até a agencia do Correio. E doía mais ainda pois ainda tinha que colar os selos: 3 ou 4 selos em cada envelope, 100 envelopes, 300 ou 400 lambidas, haja saliva e dedos. E o pulso ainda pulsa e o coração ainda pulsa e pula.

Semanas depois, o carteiro entrega ao poeta vários envelopes: críticas, sugestões…e o trabalho daquele que recebera nosso trabalho…E o pulso dói de tanto abrir envelope, e o coração pulsa de satisfação, de prazer, pois afinal existia uma revolução em curso e nosso pulso erguido em palavras de ordem surdas, a metralhadora-manivela, pentes de balas-grampos, envelopes e selos eram armas poderosas. E nossos pulsos erguidos a porta de teatros, shows de Rock e praças públicas oferecendo o estandarte da revolução que a maioria não queria saber, nem do estandarte, menos ainda da revolução. O pulso doía, o coração pulsava de tristeza, mas uma guerra é assim mesmo…

Hoje, passados mais de 20 anos dessa revolução sem fim, esses livros e revistinhas mimeografados se apagaram, sumiram; como sumiram aqueles cujos pulsos doíam e os corações pulsavam imaginando poder derrotar o dragão da maldade. Sementes, Arquílocos e Cogumelos Atômicos, Luis e Claudia, Nano, Gê e Yara, Yaracy, Eu, todos nós, nanicos, sonhadores, loucos e o que mais.

Fico apenas aqui imaginando: se naquela época tivéssemos computadores e Internet e lugar de máquinas de escrever e envelopes, teríamos conseguido alguma coisa melhor do que agora, quando o pulso ainda dói de digitar no teclado e o coração de qualquer forma ainda pulsa a cada poema, a cada texto que colocamos na Rede?

Este texto pretende mais do que contar o que era editar um “fanzine” ou livro nos anos 70, pretende lembrar a todos nós que ainda insistimos em pensar e fazer os outros pensarem que sempre vale a pena, mesmo que o pulso doa demais, mesmo que o coração pare de pulsar.

(A Luís “Tout Court” e Cláudia Beatriz, onde vocês estiverem!)

10/17/2000

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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