Crônica – Síndrome de Barrabás

Domingo de Páscoa. Emissoras de televisão nos inundam com filmes sacros da vida de Cristo, repetidos anos a fio.

Uma coisa hoje chamou minha atenção. É sobre a figura e importância histórica de um personagem. Acreditando que os fatos históricos narrados aconteceram do jeito que são contados e tirando a crença religiosa da predestinação da morte de Jesus naquele momento, podemos tecer algumas análises sobre Barrabás.

Segundo a Bíblia Cristã, Barrabás é apenas um personagem sem importância, um “simples ladrão”, cuja morte pela crucificação foi trocada – por escolha popular, pela do chamado “Rei dos Judeus”. A questão que proponho é que, acaso a população presente no julgamento tivesse escolhido por deixar Barrabás morrer e o outro, Jesus, continuar?

A história da Humanidade, especialmente com relação a fé Cristã seria totalmente outra. Um exercício de raciocínio parecido com o que poderia ter acontecido foi colocado, sob a forma de um delírio para escapar de críticas mais severas, por Martin Scorcese em seu ótimo filme “A Última Tentação de Cristo”. Acaso Barrabás, o simples ladrão, fosse crucificado naquele momento, provavelmente nada do que conhecemos conheceríamos. Jesus teria continuado sua existência, casando com Madalena, como propõe Scorcese e possivelmente hoje sequer teríamos escutado falar nesse homem. (Lembrem-se que estou falando sob fatos históricos, não em crenças religiosas).

Podemos imaginar uma série de acontecimentos, usar a imaginação e tecer inúmeras teses sobre o aconteceria caso Jesus não fosse o escolhido para morrer por aquela multidão que acreditou que os crimes de Barrabás eram menores.

Esbarro aqui numa questão que coloquei há uns quatro anos em meu “Manifesto”, sobre penas de morte, aborto e julgamentos humanos. A Humanidade comete erros de julgamento desde o início de sua existência, Leis, legisladores, juízes, júris são seres humanos lotados de prepotência, arrogância, vaidade etc.. Temos nós capacidade de “julgar nossos semelhantes”? Claro que não! É preciso reavaliar os todos os conceitos de justiça, julgamento, escolha e democracia, coisas em que – olhe de seu lado -, nada evoluímos, continuamos na barbárie. A democracia por pressupor “escolha popular” comete seu maior erro, que é o de deixar que a população escolha entre Jesus e Barrabás, Collor e Lula etc..

Na verdade a chamada Democracia esconde e mascara a mais cruel e verdadeira Ditadura. Seu princípio de unanimidade é “burro”, como disse Nelson Rodrigues. Na verdade as pessoas são sempre movidas por fatores totalmente pessoais e puramente egoístas, e um grupo que faz uma escolha simplesmente alinha seus egoísmos e os nivela, emitindo o julgamento que pode levar à crucificação, cadeira elétrica, cadeira de presidente etc..

A Síndrome de Barrabás faz que a Democracia aja sempre como Pilatos, Primeiro finge deixar a população decidir; Segundo, e por isso é popular, agrada ; e Terceiro não precisa sujar suas mãos de sangue.Tecnicamente perfeito, Juridicamente perfeito. Democraticamente perfeito. Tudo perfeito! Enquanto isso estaremos deixando viver Barrabás e morrer a Jesus, até que a população decida o contrário…

4/23/2000

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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