Crônica – Sobre Comunismo e Outras Doenças

Fui acusado muitas vezes de não gostar de comunistas, o que efetivamente não corresponde à verdade. Não gosto, aliás, não suporto, odeio, desconjuro, etc. é o tal do comunismo, espécie desumana de ideologia. De fato todas são, mas algumas são mais que outras. Quanto aos comunistas e as comunistas, efetivamente não nutro por eles e por elas nenhuma espécie de ódio. Não mesmo!

Não tenho o hábito, nem a mania, nem o sentimento de odiar as pessoas por suas escolhas pessoais e individuais, como religião, futebol e política, apenas tenho o direito de não concordar e exigir respeito à minha forma de pensar diferente. O problema é que pessoas fazem de escolhas perversão e fanatismo. E todos sabem o resultado de fanatismo.

Um fanático religioso, daqueles que enxergam apenas o alvo de sua fé como verdade universal, é tão igual ao político e ao esportivo. E aí cometem atos de insana perversão, tentando impor sua fé a qualquer custo e condenando o que não a abraça ao limbo, ao cancelamento, ao ostracismo. E depois, como sempre é o segundo passo, usa de violência de todos os tipos para impô-la.

Tenho amigos comunistas, já transei com mulheres comunistas, da mesma forma que tenho amigos corintianos e já fui casado com evangélicas militantes. Qual o problema? Aliás, eu transaria com a Manuela, e torno a perguntar: qual é o problema? Sexo tem ideologia? Buceta tem ideologia? Sempre acreditei que sexo e amizades estariam acima de qualquer dessas questões, mas parece que estamos num mundo onde, sim, há muitos problemas nisso.

Durante os anos setenta, oitenta, noventa, quando não tínhamos tanta informação, e vivíamos primeiro num regime político totalmente opressor, o único lado que poderíamos, fossemos nós ao menos um pouco amantes da liberdade, era estar do lado da “esquerda”, termo, aliás, que ficou esquecido durante muitos e muitos anos, e só voltou à moda na segunda metade da segunda década do século vinte e um. Tínhamos de um lado os brucutus militares prendendo e até mesmo matando todos que nem que minimamente fosse, lutavam contra isso.

Acreditamos naqueles que eram nossos guias, pessoas que tinham mais acesso à informação, e que nos traziam notícias requentadas, dogmas mastigados e palavras de ordem desordenadas. Assim, acreditávamos naqueles ideais, na luta pela “Democracia”. Só que não, né?.  Agora sabemos que a luta não era para nos libertar da Ditadura, mas de UMA Ditadura, a Militar, e implantar outra, a do Proletariado, como bem propunham as cartilhas marxistas que nos enganaram até que pudéssemos ter acesso a outros pontos. E até aí, já tínhamos cometido inúmeros erros, como repassar isso à próxima geração, militarmos nas ruas em prol de candidatos que propunham a honestidade. Até sermos surpreendidos pelos fatos: no poder essas pessoas demonstraram ser tão ou mais desonestas que seus inimigos.

As máscaras finalmente caíram e demonstraram a face horrível desses monstros, e com o passar do tempo viraram cadáveres putrefatos, verdadeiros zumbis, que continuavam a “morder” e transformar mais e mais pessoas em zumbis idênticos a eles. Deixamos de lado esse roteiro, abrimos os olhos e passamos a buscar outras referências e formas de pensar, até que a conclusão chegou, de uma forma clara e simples: qualquer forma de socialismo ou comunismo são absolutamente desumanas, não apenas por ensejar ditaduras – todos os regimes baseados nessa ideologia são genocidas, a começar com Stalin e passando por Pol Pot, Mao e etcetera -, mas por ser contra a essência do ser humano. As características humanas mais básicas, como a competição, foi o que nos trouxeram até o presente estágio da evolução que, análises filosóficas à parte, são um fato.

Mesmo assim, compreendendo todo o mal que constitui o socialismo e comunismo, jamais afastei do meu convívio pessoas que professam esse dogma, a não ser… A  não ser que tenham agido com falta de respeito a mim, como pessoa e como pensador livre que faço questão de ser. Aí a questão é bem outra: essas pessoas foram afastadas não por causa de sua fé, mas por seu fanatismo cego.

Cito alguns exemplos: um amigo, a quem sempre admirei, como pessoa e como escritor e pensador, ao qual incentivei e coloquei dentro de todos os projetos de cultura que realizei, o qual se sentiu honrado segundo suas palavras quando lhe pedi para que prefaciasse nada menos que minha autobiografia, e colocou-me ali como um quase gênio, há cerca de dois anos me mandou uma mensagem muito mal educada, dizendo que se eu era contra a “esquerda”, que deveria nunca mais referenciá-lo em nada, e rasgasse tudo o que ele tinha escrito sobre mim. Atendi ao primeiro pedido, mas o segundo é impossível, já que o depoimento dele está impressos nos pelo menos 100 exemplares vendidos e espalhados mundo a fora. Esse foi apenas um entre muitos amigos que me transformaram de herói em vilão apenas porque ouso discordar de sua fé. Esta é apenas uma das histórias, a lista é enorme, e dela constam muitas pessoas a quem ajudei, elevei e trouxe comigo, sem nunca colocar em jogo sua arte e seu trabalho, mas que não se detiveram em me lançar ofensas públicas e desaforos.

(Neste ponto fui obrigado a dar uma pausa e respirar, já que falar sobre esse assunto publicamente é algo que mexe demais, pelas pessoas envolvidas. Precisei parar e tomar uma cerveja, para relaxar e dar coragem.)

Sou da chamada “Geração X”, que nasceu entre quinze ou dez anos após a Segunda Guerra Mundial. A que nos antecedeu, nascida justamente durante ela, criou praticamente tudo que temos de importante no Rock. Todos os músicos dos grandes “conjuntos” – e aqui uso o termo usado em português até quase o final do século vinte, para se referir a grupos musicais – que se referencia como os maiores e mais importantes da história, nasceram nessa época.

Essa minha geração, que nasceu e cresceu nas Terras de Cabral, durante o Regime Militar e de uma cultura patriarcal violenta e agressiva, ainda herança de antepassados, decidiu – erroneamente, hoje eu entendo -, que não faríamos com nossos filhos o que tinha sido feito conosco, e assim passamos a rasgar agir diametralmente na oposição aos conceitos de sermos pais e mães. Inconscientemente acabamos por criar monstrinhos, que foram domesticados por espertos tiranos,  que a primeira coisa que fizeram foi se aproveitar das fragilidades eternamente  adolescentes das gerações Y, Z,  Millenials, etc., e imputar-lhes o desprezo à autoridade que, qualquer sociólogo de botequim sabe, começa pela paterna. O objetivo: desacreditar daqueles que foram testemunhas de fatos, da própria história vivida na pele, mas que contradiz sua deturpada visão desses.

Quando minha então esposa chegou em casa e me confirmou a gravidez, ainda no princípio de 1983, lembro-me que a primeira coisa que pensei foi: “E agora? O que é ser pai?” E completei meu pensamento, dando a mim mesmo a resposta mais equivocada da minha vida: “Não sei o que é ser pai, mas sei como não ser, que é a forma como o meu foi.” Fiz disso minha premissa básica… E tomei sonoramente no rabo. Em outras palavras, minha decisão criou monstrinhos que, como sempre nas história, se voltam contra o “criador”.

Mas que pretensão a minha… Acreditar-me o criador… Eu poderia passar o restante do dia e da próxima madrugada  discorrendo sobre todos os feitos como pai, que abandonei meus sonhos em prol da prole, que lavei bosta em fraldas de pano, que acompanhei os primeiros passos, que dei livros nas mãos de pirralhos de um ano para que rabiscassem e rasgassem, assim tomando contato com os livros; que coloquei sobrenomes das mães nos ditos cujos, numa época em isso era quase um sacrilégio; que fui chamado de frouxo por parentes por dar muita liberdade a meus filhos – sendo depois, paradoxalmente, por eles chamado de ditador -, e outras tantas, mas prefiro dar apenas esse breve resumo, e assimilar o golpe, baseado em declarações que atestam que eu não os criei sozinho, e jamais iriam reconhecer o que fiz, por ser “pura obrigação”. Sim, obrigação que assumi como dever, coisa  que comunistas tanto detestam.

Um parêntese nessa história: historicamente, comunistas conflagram uma sociedade baseada em apenas dois dos quatro pilares necessários a uma sociedade digna. Baseiam-se apenas na liberdade sem a responsabilidade e no direito sem o dever. Uma sociedade assim não apenas é manca, mas absolutamente condenada a ruir, pela falta de sustentação concreta, sobre as cabeças de quem debaixo dela habitam.

As bases de toda a educação que lhes quis imputar – e educar é tarefa de pais, não da escola -, foram conceitos como: “Não faça com outros o que não gostaria que fizessem contigo”, “Sempre procure outras fontes, não se contente apenas com uma. Depois peguem tudo isso e processem em seu liquidificador mental e tirem suas próprias conclusões.”, e “Não existem verdades absolutas, nem a minha.”. Meus filhos só lembram dessa, tachando-me não como um não dono da verdade, mas como alguém que precisa ser desacreditado, esquecido e… Cancelado. Esquecido. Isolado. O maldito Gramsci cumpriu seu papel direitinho!

Então, a partir do ponto em que filhos são cooptados, que tem sua oposição natural em relação às ideias paternas transformados em Transtorno Opositor, nada mais resta de esperança, muito menos de respeito. Acabou! Quando se escuta de filhos que jamais irão reconhecer nada do que lhes foi feito e dado de graça, e em contrapartida chamam de “pai” um escroto que roubou a nação a desejou lançada num lodaçal, e que dizem que sua forma de pensar ameaça aos outros, e que também muda de nome em redes sociais e pede para que qualquer coisa que lhes atrele ao seu nome seja apagada, pois lhes causa problemas com os amigos, o caso está definitivamente perdido.

Há uma série de situações que, independente de relação familiar, são enfiadas nas cabeças das pessoas como mantras, diuturnamente, pelas faculdades, mídia, transformando em heróis os algozes da humanidades, justificando todos os seus atos malignos como necessários à causa, e perseguindo os que teimam e mostrar que as coisas não são e não foram assim. Portanto, o cancelamento é útil para apagar a história real e colocar em seu lugar as falácias e mentiras puras que são replicadas aos quatro cantos. Apaguem os que sabem da história, e que a viveram, faça com que todos os enxerguem como loucos, e assim ninguém lhes ouvirá e em seu lugar estará a mentira.

Durante os anos da Ditadura Militar, sabe-se agora, o lado dos “mocinhos” não era tão florido como queriam fazer parecer: pessoas do “outro lado” também foram assassinadas por eles, bancos assaltados e sequestros, sem contar a delação e o “justiçamento” dos próprios companheiros. Portanto, não é paranoia minha pensar, que caso exista um confronto mais sério, ou seja uma guerra declarada, que filhos comunistas  entreguem ao justiçamento pais que, segundo eles são “fascistas”, termo do qual acusam todos aqueles que pensam fora do contexto que eles próprios julgam ser únicos.

Como escrevi no primeiro parágrafo desta crônica, e reafirmando o propósito do titulo até apelativo e escandaloso, reafirmo: não odeio os comunistas, odeio o comunismo, a mais cruel forma de controle humano jamais concebida. É difícil entender como ainda posso não odiar as pessoas que compactuam com essa forma genocida de poder, mas ainda acredito que seja isso apenas uma doença, altamente contagiosa, e que um dia as pessoas que amo possam se curar, perceber o quanto estão sendo enganadas, como estão sendo ingênuas e tolas, massa de manobra, de poderosos que nada se importam com seres humanos.

Não tenho amigos comunistas, pretos, amarelos, beges: tenho amigos! Ao menos assim considero. Assim enxergo essas pessoas, embora a cada dia menos eles se façam presentes na minha vida, especialmente para não ficarem mal com sua patota do mal. Há muitos que agem assim: muitos concordam com o que penso, digo e escrevo, mas não se envolvem, não comentam, não participam. Ah, a antiga necessidade de aceitação pelos pares… Em adolescentes é um estágio normal, mas em adultos formados é patologia. Doença!

Relativizar Holodomor e justificar Josif Stalin, acreditar na inocência de Luís Inácio e nas boas intenções do petismo, e especialmente defender o aborto como decisão baseada em escolha própria à despeito de qualquer coisa chamada de vida, e em contrapartida oferecer liberdade e abrandamento à bandidos não parecem atitudes humanistas, mas uma doença de caráter, plenamente ajustada para hospedar uma praga letal, que se espalha pelo mundo, preparando-o para o controle final.

Não há droga, nem remédio, nem vacina quanto a isso, pois essa doença, esse vírus é mutante e age nas células do hospedeiro, e dali se prolifera até  que a metástase se instale. Há cura? Acredito que sim, e ainda que eu possa continuar a enxergá-la. Prefiro acreditar nisso ainda. E, parafraseando uma citação bíblica  afirmo: amo o doente, mas não a doença.

Afinal, é preciso amar as pessoas como se não houvesse comunismo?

17/01/2021

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

5 1 Vote
Article Rating
Assinar
Notificação de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários