Crônica – Sobre Um Punhal Enfiado na Garganta de Um Cão

Ei, psiu ! Chega mais perto do monitor ! Quero lhe contar uma história interessante. É, chega perto ! A letra é um pouco miúda ? A porta está aberta ? Então fecha ! Presta atenção, é uma história um tanto complicada, mas acredito que conseguirei contar desde que o telefone e a campainha não toquem. Ok, ok, apóie o antebraço sobre a mesa, puxe a cadeira mais perto. Ler no monitor é complicado, né ?! É, não dá para dobrar a ponta da página quando quer interromper, nem riscar as frases interessantes. É, não tem muito jeito. Querendo saber o que eu quero lhe contar é a única forma. É uma merda ter que ficar puxando a maldita barra de rolagem quando quer ir ao parágrafo seguinte, era mais fácil virar a página e pronto ! Nem dá pra botar o computador debaixo do braço e continuar a ler no ônibus a caminho do trabalho. Maldito computador ! Cheiro de papel e tinta de impressão é uma delicia, né ? Mas tudo bem, presta atenção no que quero lhe contar. É uma história bem interessante. Ao menos acho que é ! Não atende o telefone agora, não. Jantou ? Almoçou ? Então … diga apenas uma coisa, com tanto texto de humor por aí e você vem bem num site desses ? Ah, sei, agora é seu momento de intelectual ! As piadas e as fotos eróticas você já viu e leu, né ?! Tudo bem, ninguém é de ferro e aqui também você não precisa se sentir um imbecil e comprar um monte de jornal só pra ter a desculpa para comprar uma revista erótica. Basta digitar o endereço e pronto: piadas, fotos, filmes … Mas a história … que saco ler no computador. Computador não foi feito para se colocar texto. Pára de brincadeira, presta atenção ! Ah, não sei, não … acho que você não vai querer escutar minha história … é uma coisa meio pesada sobre filosofia … “Filosofia”, você deve estar pensando. “Mas isso aqui não é lugar de filosofia.” Tá bom, vou contar outra história … Falar sobre o que? Ah, se você pudesse me dizer sobre o que gostaria de ler, eu bem poderia escrever sobre o que você quer ler. Mas você fica ai, parado na frente desse maldito computador e eu aqui, tentando escrever alguma coisa que possa lhe chamar a atenção. Afinal pulso telefônico é caro e seu tempo é curto. E fico eu aqui te enrolando e não sai texto porcaria nenhuma … Escrever para a Internet, escrever na Internet, escrever sobre a Internet. Que lindo ! Preferia falar sobre meu sonho de ontem a noite … mas ontem a noite eu nem dormi. Então o que seria aquilo ? … Bom, deixa pra lá, acho que você não está minimamente interessado naquilo que eu quero lhe contar. Afinal tem tanto lugar com fotos de mulheres peladas e piada … Tá OK. Então vai dormir, vai! Amanhã você volta aqui e te conto minha história.

9/1/2001

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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