Crônica – Tia Sofia

Quando eu nasci, não foi um anjo torto que me visitou e disse: “Vai, Carlos, vai ser gauge na vida”, foi uma puta morta, que disse “Vai, Barata, vai se foder na vida”, e depois caiu dura de gonorréia. Minhas histórias até parecem mentira, mas é a verdade quando eu conto. Eu nunca aumentei um ponto, apenas algumas vírgulas. Ah, essa minha mania de contar histórias que parecem estórias, ou o oposto, à gosto do freguês. Ah, o português, a língua mais poética do Universo, que, aliás, rima com verso. Eu nunca soube viver, mas sempre contei histórias – estórias? – de vida como se fossem vivas, vívidas e vividas. Entendes o que eu falo? Sei que não, mas pode tirar esse sorriso intelectual do rosto e me morda o rosto, por desgosto ou mau gosto. As ultimas palavras da minha tia puta foram: “Vão se foder!”, e há tanta poesia em vá se foder que parece que o poder da filosofia se encerra nisso. Era Sofia, o nome da minha tia, e ela não deixou herança, mas três filhos bastardos, de tarados, mal amados e desencantados. Era sábia a Sofia, e todos a chamavam de vadia. Só eu a chamava de tia. E ela sorria, e depois bebia o quanto podia. Até que um dia, tia Sofia, que sofria de afasia, e morria como convinha, a cada dia, não acordou. Ela tinha um presente para mim, que nunca entregou, e aquele pacote, fechado, ainda está guardado no meu guarda-roupas, junto com as cartas que ela escrevia. Ah, Sofia, minha tia, disseram ser covardia, mas eu sabia, que seu presente eu jamais receberia.

01/07/2021

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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