Crônica – Timidez, Medo Ou Covardia?

Desde a pífia Internet brasileira de 1995, quando os provedores ainda eram apenas as universidades que faço uso dela. E desde então nunca entendi, e até hoje continuo sem entender, a fúria com que as pessoas se atiram ás salas de “chat”. Apelidos sem nenhuma criatividade, homens se passando por mulher, conversas tolas e sem nenhum sentido que em nada acrescentam, em uma linguagem cheia de absurdos erros de grafia etc..

Uma “conversa” que tem por mídia um teclado de computador em lugar de boca, um monitor em lugar de um olhar, um “clic” de “mouse” em lugar de gestos, alto-falantes de computador em lugar de ouvidos… Tudo muito frio e sem emoção. Mas porque as pessoas se atiram com tanta fúria a isso? Timidez, medo ou covardia?

Não sou psicólogo nem sociólogo e portanto irei deixar de lado a análises desse nível. A questão que mais preocupa no entanto é a questão da segurança. Imaginem a que espécie de perigos está exposta uma pessoa que, carente de afeto e outras coisas, entre em uma dessas conversas e acabe envolvida por um dos muitos espertos que ali penetram? Um número de telefone jogado numa dessas salas, mesmo que no tal “reservado” pode ocasionar uma série de inimagináveis problemas como chantagens, ameaças e porque não, seqüestros.

A Internet hoje é moda e como moda tem uma série de pessoas que não conhecem seus meandros e passam a usar das salas de bate-papo ingenuamente como confessionário, consultório psicológico e até mesmo consultório médico. E os espertos sabem disso. Sabem por exemplo da quantidade enorme de mulheres carentes que aproveitam a solidão para buscar alguma companhia, desabafar seus problemas e carências, imaginando que nisso não há nenhum perigo. A diferença é que quando se entra numa igreja em busca de um confessionário, se sabe ao menos seu endereço, num consultório psicológico tem a identificação do médico… mas em uma sala de bate-papo, se conhece o que? E é ai onde mora realmente o perigo! Um padre tem que manter o chamado “Segredo de Confissão”, o psicólogo tem a questão da ética profissional. E o espertalhão dentro da sala de bate-papo a que regras segue? Apenas as regras da malandragem, isto é, nenhuma.

Que a Internet foi um grande salto em relação à democratização de informações e da evolução das comunicações ninguém discute, mas poucos param para pensar sobre o preço e os custos que isso tem. Ao contrário do antigo rádio, companheiro das donas de casa com suas rádio-novelas fantasiosas e absurdas, dos programas femininos de televisão com suas receitas iningeríveis, a Internet e particularmente as salas de “chat” possibilitam a tão cantada e prosa e verso “interatividade”. As pessoas podem ali entrar e despejar seus traumas, anseios e desejos e sempre sair com alguma coisa, nem que essa alguma coisa seja outros traumas, anseios e desejos frustrados e multiplicados. Uma legião de espertos se planta dentro das salas de “chat” em busca de pessoas carentes, presas fáceis, e muitas vezes saem dali com elas nos dentes. As salas de “chat” são verdadeiros campos de caça de lobos em pele de cordeiro, de leões esfaimados e de belas gazelas carentes e portanto prontas a serem abatidas.

Há um tempo atrás, uma amiga que embora culta e inteligente enfrentava problemas de carência afetiva em um casamento de muitos anos, caiu absurdamente numa dessas armadilhas: deu nome completo, endereço e telefone numa dessas salas a um espertalhão que se fazia passar por um sedutor europeu. Embora ela se furte a revelar se a coisa teve, digamos, conseqüências físicas, o fato é que o marido descobriu a conversa toda o que criou uma situação no mínimo constrangedora gerando uma série de desconfianças e brigas, o que quase transformou uma normal crise de casamento em um divórcio litigioso.

Outro amigo marcou um encontro em uma dessas salas com uma dita “Loira Carente” num parque e o que lhe apareceu foi um par de assaltantes que lhe levaram a carteira, cartões de crédito e de banco. A tal loira nunca existiu ou era apenas uma isca. Meu amigo jurou que nunca mais entraria em salas de bate-papo, mas ontem estava eufórico: “Conheci uma mina na Internet…!”

Histórias como estas fazem a delicia dos delegados de plantão, das conversas de bar e dos detetives particulares. Um amigo mandou-me outro dia um anuncio publicado em um jornal, desses de detetive particular, que dizia mais ou menos o seguinte: “Adultério Virtual – Adultério virtual também é crime, procure-me e resolvo seu caso com sigilo e descrição…”.

Nada substitui o toque, o gesto, o sussurro e o falar mais empolgado, a cerveja em cima da mesa, o olhar furtivo. Até quando as pessoas irão desligar o mundo e ligar o computador? Até quando vão se esconder atrás de um monitor, de um “nick”? Até quando vão “clicar” em lugar de abraçar, digitar em lugar de acariciar? Falar um monte de asneiras e depois “sair da sala”. Até quando serão tímidas, medrosas e covardes?

Tente imaginar uma dessas salas no mundo real, um bar por exemplo: você chega e primeiro tem que se identificar com um apelido, um porteiro anuncia sua entrada no bar erguendo uma tabuleta onde está escrito: “Casado Gostoso entra no bar”. Você senta em uma cadeira, com o rosto escondido por um muro, ninguém vê ninguém e você fica olhando numa parede onde tem uma lista com os “nomes” das pessoas ali presentes. Escreve uma frase em uma placa e ergue uma plaqueta com o apelido do destinatário da sua frase e depois de uns quinze minutos percebe uma outra com seu nome e uma outra frase, do tipo “Vc vem smpre aki?”. Alguém lhe interessa particularmente e você mostra a placa só pro individuo. Sem mais nem menos, quando se enche, sai correndo e o porteiro anuncia pro resto do bar, erguendo uma outra tabuleta escrita: “Casado Gostoso sai do bar”… Ninguém se interessa porque você entrou e muito menos porque saiu. È ridículo, isso! Nenhum olhar, nenhum gesto, nenhum aceno, nada, apenas frases mal escritas e placas com nomes… e o mais complicado é que ainda nesse tal bar, ao você sair pode ser seguido por alguém que pode lhe causar uma série de problemas, pelas esquinas escuras, vielas mal iluminadas e becos sem saída da Internet…

3/5/2002

Matéria Publicada no Jornal do Brasil 21/03/2002

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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