Crônica – Tradições e Traições

Exatamente no dia seguinte ao término da Festa da Carne, é decretado o início da Quaresma que irá culminar na Páscoa. O intuito seria pagar os pecados  com arrependimento e jejum, uma preparação para a libertação que é simbolizada no dia da Ressurreição.

O Dicionário Aurélio traz inúmeros significados pala o termo Quaresma, entre eles penitência e, curiosamente, mentiroso, potoqueiro. Interessante a língua portuguesa com suas ambigüidades. Mas muito mais interessantes são as ambigüidades religiosas de preceitos e preconceitos, criados com o intuito de carregar uma imensa massa de ignorantes ao calvário imolatório. Arrependimento e penitencia de pecados cometidos pela carne, entenda-se aí claramente sexo, cria uma legião de falsos hipócritas e pervertidos não somente sexuais, mas  – e principalmente – morais e mentais.

Pecados foram criados para justificar castigos, como um pai demente que inventa que comer doces é pecado apenas porque sabe que qualquer criança os adora e portanto será muitas e muitas vezes castigado por tal “pecado”. Criados com a intenção de estabelecer um jogo de poder e dominação, enchendo assim os cofres de uma instituição que nasceu encima de uma mentira, mas cresceu e enriqueceu às custas da ignorância que ela mesma alimenta; a ignorância de pessoas que acreditam, porque foram induzidos a acreditar por essa mesma instituição, na redenção de seus erros depois da morte, como forma de atenuar suas consciências; a ignorância de pessoas que mesmo que questionem conscientemente tais dogmas, em seu inconsciente os temem e continuam a perpetuar mentiras, por puro medo e ignorância, do mesmo jeito que o homem de eras escuras ao enxergar um relâmpago, via naquilo manifestações divinas de alguma espécie.

Uma instituição que enriqueceu com a parceria de reis, ditadores, seus exércitos e demais assassinos da humanidade; que criou e continua criando mártires e santos; que prega a pureza dos pobres dando a eles lugares garantidos no Paraíso, mas apenas depois da morte, com o intuito podre e nojento de mantê-los sempre distantes do “sujo” e “pecaminoso” dinheiro, mantendo assim, num jogo de pobres interesses, seus interesses e de seus patronos, imaculados.

Uma instituição que criou e fomentou exércitos, queimou mulheres em fogueiras, colaborou com Hitler e outros ditadores sanguinários e, mesmo dentro de seus quadros, condenou a morte aqueles que não bebiam de sua “água benta”, que não “comungavam” em sua “missa”; que usa a metástase em sentido pleno e escatológico de um personagem cuja existência é contestada, para criar através de de uma imagem banhada de sangue, um conceito e um preceito de ameaça e conformação.

Uma imagem de um homem pregado a um par cruzado de vigas de madeira, totalmente debilitado e sangrento é atribuída ao “Filho de Deus”, ao “Salvador da Humanidade”. Martírio como sinônimo de doação e desprendimento.  Um Pai que é ao mesmo tempo seu próprio filho, que é entregue “ele” mesmo a “Ele” mesmo, para salvar uma humanidade em que tudo que existe Ele mesmo criou, inclusive os tais “pecados”, dela mesma… É realmente difícil de compreender, a não ser baseado nos dogmas deturpados e alterados a conveniências de cada “guardião”.

A hipocrisia das tradições chega portanto, ao seu mais alto grau de absurdo com a Quaresma que tem o ponto culminante na Páscoa. Cria um mote de humanismo hipócrita com a chamada “Campanha da Fraternidade”, mas não abre sequer uma fresta de seus próprios e abarrotados cofres para ajudar os necessitados, – pois afinal os pobres tem que continuar pobres e famintos para poder continuar a acreditar na mentira – cria a penitência; como se sofrimento e dor pudessem libertar as pessoas de seus maus e humanos instintos.

Uma instituição que ergue os maus luxuosos palácios que a arquitetura humana já conheceu, que mantém um moribundo em seu trono máximo, usando do mesmo “marketing” da morte do “Cristo”, que condena seus representantes a abdicar do sexo em nome de um purificação que na verdade é com intenção de obter dedicação total  e principalmente não permitir a geração de descendentes e herdeiros que possam lhes questionar as posses; uma instituição que condena o aborto, mas que relega a morte por inanição milhares e milhares de crianças ás portas suntuosas de suas igrejas.

A existência de uma instituição que sempre cresceu alicerçada pela ignorância, cujas bases estão calcadas em tradições e traições, que nasceu do sangue de um homem morto, das traições de seus seguidores e de preceitos puramente egoístas, precisa ser desmistificada como o Coelhinho da Páscoa.

Depois da penitência e da dor, dos joelhos doloridos em genuflexórios imundos, do sangue e do martírio, o sangue que jorra da cruz se transformará em chocolate e o “Salvador da Humanidade”  em “Coelhinho da Páscoa”. Aliás, ovos de chocolate e coelhos, símbolos de uma fertilidade que não foi permitida ao “Filho de Deus” nem aos Padres mas apenas a uma inútil e pecaminosa raça de seres que acreditam em redenção pós morte, enquanto carregam seus corpos inertes por uma existência cheia de culpas, crucificados diariamente em postes de eletricidade e filas de desemprego e sangram esgotados pela fome. Uma humanidade de Judas e Barrabás,  que carrega suas mentes vazias comportadas por corpos moribundos até a igreja mais próxima onde será rezada uma missa de sétimo dia de corpo presente por um Padre vestido de Coelhinho da Páscoa.

Feliz Páscoa, Coelhinhos de Chocolate!

3/18/2001

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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