Crônica – Tributo Ao Véio Chico

Qualquer nordestino conhece o Rio São Francisco, que chamam íntima e carinhosamente de “Véio Chico”. Um dos maiores e mais bonitos rios do mundo.

Mas quero falar de um outro Rio chamado “Véio Chico”. Um rio que correu abundantemente em direção ao mar, que às suas margens criou vida e paixão, um rio rude e inóspito quanto o outro.

O “Véio Chico” sobre o qual discorro chamava Francisco Lazarini, mineiro de nascimento, origem italiana; alto, magro, olhos claros; caipira de criação, paulista de coração. Um homem que fez da vida uma criação, em forma de vasos que abrigavam plantas e flores. Verdadeiras obras de arte criadas por um gênio rude e semi-analfabeto.

O barro branco retirado das barrancas dos córregos da periferia de São Paulo eram o modelo sobre o qual era construída com requintes e detalhes dignos do mais conceituado artesão ou do mais estudado engenheiro, uma forma não raramente em inúmeras partes que se encaixavam com a precisão de um relógio suíço.

Dentro desta forma, cimento, pedrisco e areia, e as paredes socadas com uma “boneca” de trapos até a construção final. Areia úmida enchendo, tampa de madeira, aquelas braços magros com veias à mostra igual a afluentes de um rio, erguendo aquele conjunto com cerca de 30 quilos, debruçado de boca para baixo.

A secagem, retirada da forma, nata de cimento, banho de cal e uma pintura de esmalte da melhor qualidade. Decoração feita com grossos fios de tinta, desenhada com um graveto de madeira e o vaso está pronto.

Depois 12 ou 13 dessas peças de arte daquele Leonardo da Vinci caboclo arrastadas em um carrinho de madeira, quilômetros e quilômetros pelas ruas; um menino magro e raquítico ao lado, assustado e medroso. O velho rabisca em uma velha caderneta, anota pedidos, faz contas de fiados com precisão, em garranchos que apenas ele entende, depois retorna a sua casa orgulhoso de seu trabalho.

Um rio rude e inóspito, que em seu caminho arrasou plantações, um rio que correu ao mar em busca de seu destino, que como um rio nunca morre, apenas cumpre um destino. Um rio inóspito chamado “Véio Chico”.

P.S. Conheci bem esse Rio Chamado Véio Chico, era meu avô. Como acontece com um rio, nem sempre nossa relação foi cordial, mas também como sempre acontece com um rio, Véio Chico trouxe sua força, sua energia de criação e vida a todos aqueles que estiveram a sua margem. O menino magro e medroso bebeu daquelas águas nem sempre cristalinas, mas cheias de vitalidade e aprendeu que a força é algo que se conquista.

5/21/2000

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

5 1 Vote
Article Rating
Assinar
Notificação de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários