Crônica – Um Conto de Ano Novo

Era o fim. E eu poderia ter dado adeus às noites extensas e intensas, às putas mal dormidas e drogadas, custando apenas um par de notas de pequeno valor. Era o fim, poderia ser o fim das tardes de sonolência, das manhãs cinzentas e dos lençóis cobertos de esperma e vômito de Cynar.  Poderia mesmo ser o fim, das dores de cabeça de ressaca, do estomago embrulhado em todas as manhãs e das caganeiras fedorentas por causa da bebida. Sim, poderia ser o fim de meus sonhos de poeta boêmio, amante de putas e garrafas, de esquinas escuras e lâmpadas que mal iluminam os rostos dos perdidos da madrugada. Um fim anunciado, pois todo fim existe e a tudo existe um fim. É inevitável, tudo sempre chega ao fim. Amizades de bar então, essas não são duradouras, não sobrevivem a ressaca da manhã seguinte. O vômito e as dores de cabeça acabam com as mais belas amizades.

E naquela ultima noite do ultimo dia do ano, saímos, eu e meu melhor amigo de bar, abraçados e cantando aquela antiga e estúpida canção de noite de virada de ano: “Adeus ano velho, feliz ano novo…” As bocas tortas, as pernas moles e babávamos enquanto cantávamos, segurando cada um uma garrafa de vinho, do mais barato que encontramos. “Que tudo se realize, no ano que vai nascer”. Que musica idiota era aquela que nós, sem controlar nossas mentes entorpecidas insistíamos em cantar.

Havia duas putas paradas na esquina, microsaias e belas coxas, mas bundas flácidas e peitos caídos. Nós as beijamos e lhes desejamos “Feliz Ano Novo”, sem antes enfiar as mãos entre suas coxas, o que rendeu ao meu amigo, um sonoro tapa na cara da mulher que ele bolinava. A que eu agarrei e joguei vinho decote abaixo, parecia mais ligada ao espírito do momento e deixou que eu bolinasse sua bunda flácida e só ficou brava quando eu estalei o elástico de sua calcinha. Ai meu destino foi idêntico ao do meu amigo: uma mão espalmada na minha cara. “Estão querendo foder de graça, é?! Então vão para casa comer suas mulheres, seus filhos da puta!”. Aquilo era mesmo o fim.

“Muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender!” E aquelas putas não estavam dispostas a dar nada, apenas a vender. Mandamos as duas tomarem no cu e continuamos nosso caminho, debaixo dos palavrões ditos pelas mulheres “da vida”. “Para os solteiros, sorte no amor, nenhuma esperança perdida” E nós ali, com as esperanças perdidas, sem sorte no amor depois da recusa das putas em nos dar amor gratuito. Solteiros e bêbados já dentro da madrugada de um novo ano. Ah, apenas um outro dia do calendário. Apenas isso. E era mesmo o fim.

Das ruas, víamos e ouvíamos as famílias alegres cantando a chegada do novo ano e achávamos que eles eram mesmo felizes. Parecia que eram mesmo todos felizes naquela noite, menos nós. Menos eu, meu amigo e as putas. Nós éramos bêbados, desviados da sociedade, prostituidos e nos arrastávamos pelas calçadas feito dejetos, feito cânceres extirpados do organismo da sociedade. Éramos doenças, muito mais que doentes.

“Para os casados, nenhuma briga, paz e sossego na vida.” Lembrei das minhas ex-esposas, meu amigo de ex amantes e as putas, as putas deviam estar lembrando de seus ex-clientes, daquelas que se casam com elas a cada trepada. Se casam por cinco minutos, depois se divorciam e vão para suas casas, onde esposas estúpidas os esperam para o jantar requentado.

Aquela canção estúpida parecia estar por todos os cantos, parecia não terminar nunca. Passava da meia noite, e, portanto já era um ano novo. Novinho em folha, mas aquela cantoria maldita não parava. Os fogos de artifício explodindo sobre nossas cabeças. Maldita musica, malditas putas, maldito ano novo, maldito meu amigo, maldito eu. E aquilo bem que poderia mesmo ser o fim.

Poderia. E assim eu poderia ter dado adeus aquelas bebedeiras, ressacas, caganeiras, poesias, putas e amigos bêbados, da mesma forma que todos dão adeus ao “ano velho”. Mas não era o fim. Era o começo.

1/01/2013

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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