Crônica – Uma Revolução de Bichos

Vasculhando mais atentamente em meu Baú, em um canto encontro um pequeno volume, menos de 150 páginas, formato pequeno. Na capa, o desenho estilizado de um porco bebendo em uma taça. O nome, ” A Revolução dos Bichos”; o autor, George Orwell. Como sempre tive costume de marcar a data em que li o livro, reparo na aba interna e leio “7/76”. Puxa, o tempo passa! Vou a biografia do autor, no final do volume: Eric Arthur Blair, seu nome verdadeiro, nasceu aristocrata em 1903 e após participar da Guerra da Birmânia, em 1927, resolver se dedicar a luta contra todo tipo de opressão. Mudou de nome, rompeu com a família e a aristocracia britânica, intensificando seus contatos com as classes trabalhadores. Em 1945, quando o mundo assistia ainda seu mais violento conflito bélico, Orwell conclui “Animal’s Farm”. Morreu em Londres em 1950, aos 47 anos, deixando por legado ainda “1984”, que fala de forma mais direta contra as sociedades totalitárias.

O livrinho ainda está bem conservado e começo a lê-lo, talvez pela centésima vez. “O Sr. Jones, proprietário da Granja do Solar…” Bem, “A Revolução dos Bichos” pode ser lido como uma fábula por quem não tem o menor conhecimento político, mas aqueles que o tem, fatalmente encontrarão farto material de análise e pensamento, quando após serem massacrados e esfoliados pelo dono da Granja, os animais baseados nas teorias e pregações de um porco chamado Major, decidem fazer uma revolução, expulsando os humanos e criando uma sociedade perfeita e igualitária. Liderados por outros dois porcos – a analogia é clara, desprezando qualquer metáfora -, de nomes Napoleão e Bola de Neve.

No início tudo funciona bem. São criados 7 mandamentos que, em resumo distinguem o animal do homem, proibindo-lhes vícios e maneiras humanos. O lema principal “Todos os animais são iguais” é implantado e em princípio respeitado até que um dos porcos resolve que o poder é gostoso e principalmente que pode lhe trazer prazeres e benefícios pessoais. Começa aí um processo parecido com qualquer regime que por teoria e princípio adotou a igualdade e depois se transformou em ferrenhas ditaduras.

Os animais começam a ser tratados da mesma forma ou até mesmo pior do que antes. E figuras como o Cavalo, que adota por lema o “Trabalharei mais ainda” cada vez que as coisas pioram, as Ovelhas que só fazer repetir balidos concordando com as “novas normas”, o outro Porco, que é uma espécie de representante da imprensa (notem a associação entre o Poder e a Imprensa).

Os donos do poder subvertem os mandamentos iniciais em seu próprio benefício, alteram hinos de louvor patriótico em louvor próprio, passam a negociar com humanos e a trazê-los para dentro da fazenda. E a maioria dos animais nem se lembra mais o que pregava a Revolução original, pois a história é recontada sempre de acordo com os interesses do Porco do Poder; até que a situação se torna muito pior do que era antes e o lema passa a ser “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”.

O livro termina com os animais espiando pela janela uma reunião entre porcos e humanos onde “Doze vozes gritavam cheias de ódio eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco.”

Fecho o livro, colocou-o de volta ao fundo do meu Baú, fechando a tampa. Parece que esse livro tem mesmo que ficar ali, guardado. Ou será que não?!!!!

4/24/2000

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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