Crônica – Vazio

Domingo de manhã:

Acordo certo de que o dia de redenção finalmente chegou. Caminho até a banca de jornal e, com o que ainda resta dos poucos recursos financeiros que ainda restam, compro um par de jornais. Cerca de cinco quilos de jornal embaixo do braço, retorno para casa com o sonho de que ali dentro esteja a minha sonhada, desejada e necessária recolocação profissional.

Chegou em casa, coloco a pilha de papel sobre meu sofá rasgado, tomo um gole de café, acendo um cigarro, num ritual de preparação para a libertação. Começo a ler as principais manchetes, o caderno de amenidades, o caderno de cultura, o de esporte e o de política. Quando chega o caderno de empregos separo, aquilo merece atenção especial, redobrada e direta. Apanho o outro jornal e repito a seqüência… pouco ou praticamente nada ali me desperta interesse maior. As noticias parecem desinteressantes, por mais importantes que possam parecer ao restante da humanidade. Não consigo prestar atenção.

Qualquer coisa ali, parece pequena perante a minha falta de trabalho e de dinheiro, até para quitar as contas mais essenciais.  A expectativa cresce e meu coração batuca, com a mesma ansiedade causada quando de meu primeiro encontro com a primeira namorada.

“Hoje encontro um trabalho nesses jornais.” Penso e acredito, mas entretanto sem muita convicção, afinal os meses passados, com todos os seus domingos, repetiram a mesma situação…e o tempo passou…

“Mas hoje será diferente. O dia é hoje.” Torno a pensar abrindo o primeiro caderno de empregos do primeiro jornal. A redenção, o retorno a dignidade. Após horas lendo anúncio por anúncio e recortando aqueles em que acredito que minha experiência profissional encaixa, mas com a auto-estima altamente abalada por exigências dia a dia maiores, com exceção da idade exigida, sempre menor, apanho o segundo jornal e refaço o caminho. No final, pouco mais de meia dúzia de anúncios colados em um pedaço de papel e com aquele sonho do início da manhã se desfazendo, chego até o computador e imprimo cópias do currículo, preparando a segunda-feira que seria normalmente de trabalho.

Segunda-feira de manhã:

Acordo, som a sensação de vazio, de incompetência, de inutilidade total. Afinal, deveria estar saindo para o trabalho. Em lugar de ir ao trabalho vou a agência do Correio, a meia de currículos postados, com a esperança de quem manda uma carta de amor a uma pessoa que não nos ama, algumas agencias de emprego. Filas, os pequenos ditadores, outros iguais a mim com a diferença de que estão empregados, tratam igual a lixo. Desespero.

Segunda-feira a tarde:

Chego em casa, completamente exausto, triste, desanimado. Os pés, a cabeça e a alma doendo, faminto, triste, chateado, frustrado. Mas a esperança ainda persiste. Quem sabe os currículos postados ainda tenham algum retorno.

Terça-feira de manhã:

O maldito telefone que não toca. E quando toca, é engano ou telemarketing, oferecendo coisas que até gostaria de comprar, mas ainda tenho que arrumar dinheiro para comprar comida.

Quarta-feira a tarde:

Ainda não tocou o telefone. É, mas ainda pode ligar.

Quinta-feira de manhã:

O telefone toca: “É sobre um currículo, gostaria de marcar uma entrevista.” Pronto, falei que a redenção tinha chegado.

Sexta-feira de manhã:

Um banho, a barba, a melhor roupa, aquela que ainda não rasgou, escovo os dentes e saio de casa, procurando adivinhar qual é a empresa que irei trabalhar, o que responder, mas a esperança é grande e minhas pernas caminham até meu destino. Um homem com um bonito terno italiano me recebe, faz algumas perguntas, algumas que não entendo a razão. Procuro responder a todas com presteza e firmeza. Retorno para casa, – agora já sei como é a empresa que irei trabalhar – com a promessa de que “Dentro de poucos dias entraremos em contato.”

Sexta-feira a noite:

A semana acabou, mas uma esperança existe. O fim de semana será de apreensão.

Sábado de manhã:

O Sábado não tem a menor graça quando se está desempregado, é um dia igual aos outros.

Domingo de manhã:

Acordo certo de que o dia de redenção finalmente chegou…

Sexta-feira á tarde:

O telefone ainda não tocou esta semana. Quanto aquela promessa, ficou no vazio. No mesmo vazio que está meu estômago,  meu bolso, o mesmo vazio da minha alma…

2/18/2000

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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