Crônica – Veio Chico e Dona Isaura

Meu avô materno era um homem rude, criado no interior de São Paulo e que, segundo contam passou a sustentar a mãe e os irmãos aos oito anos de idade, após a perda do pai. Analfabeto até cerca de quarenta anos de idade quando, por paciência de uma sobrinha, e claro, perseverança dele, aprendeu as primeiras letras. Mas era um homem determinado e de uma inteligência e determinação impares. Acostumado às lides da roça, ao chegar a São Paulo trabalhou em tecelagem e posteriormente em uma fábrica de vasos de plantas por alguns meses. E esse pouco tempo foi o suficiente para apreender aquele ofício, que passou a dignamente ser o seu. Durante anos sustentou família e adquiriu uma casa. Seu trabalho era um misto de engenharia e arte, e a partir do barro branco da beira de rios, ele construía uma contra-forma. Durante semanas a fio, utilizando instrumentos rudimentares, como facas quebradas e pedaços de bambu afiados, ele esculpia o barro até que este tomasse a forma da peça. Eram muitos detalhes, todos levando em conta o ângulo de extração da futura forma. Medidas precisas e detalhes de engenharia que só pude entender quando fui trabalhar como projetista de concreto.  Pronta a tal contra-forma ele cobria tudo com óleo queimado e passava a construir a forma propriamente dita, com cimento e areia. E depois de meses, estava pronto para produzir outra de suas obras-primas. Vasos de plantas que eram feitos no fundo do quintal de casa, de cimento, com acabamento impecável. A prova da qualidade desse trabalho é que mais de trinta anos depois da morte dele, ainda eram encontrados, ornando entradas de casas, os seus vasos.

Mas meu avô Francisco, conhecido por Veio Chico era um homem cheio de manias, tendo sempre predileção por netos que eram parecidos com ele, loiros e de olhos claros. E eu não era propriamente assim, e durante muitos anos o odiei, mesmo depois de sua morte. Até encontrar em seu trabalho e na forma como ele morrera, motivos de admiração. Na noite do dia dos Pais, possivelmente entusiasmado com a festa e a presença dos filhos, o Veio Chico resolveu fazer sexo com minha avó. E o coração não aguentou. Meus pais o encontraram com a cueca nos pés, todo melado… Minha avó ficou traumatizada durante muitos anos, se sentindo culpada. Até que um dia lhe perguntei: “Mas, vó, ele gozou antes de morrer?”, “Sim.”, “Ah, então, vó, ele morreu feliz.” Ele tinha apenas 68 anos de idade e corria o ano de 1972. Um mês depois eu começara a trabalhar propriamente, pois embora eu tenha ajudado o Veio Chico na venda de seus vasos de porta em porta, não era propriamente um emprego.

Depois que meu avô morreu, Dona Isaura, minha avó, foi morar com uns filhos e alguns anos depois, construiu uma casinha, onde eu fiquei lhe fazendo companhia durante cerca de dois anos e pouco, até meu primeiro casamento. Apesar da idade e da falta de cultura, ela era uma pessoa com mentalidade extremamente aberta e passávamos noites e noites sentados na cama conversando. Eu adorava ouvir suas histórias do Interior e ela, por sua vez, queria saber detalhes, íntimos até, das minhas façanhas de adolescente. E ria muito com elas. Uma pessoa que, quando morreu, deixou um buraco enorme na minha existência.

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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