Crônica – Verdades Históricas e Mentiras Contemporâneas

Tentando pensar, lembrando dos ciclos históricos, que talvez expliquem muita coisa. Ou não. É um erro pensar que a história nos ensina. O mesmo erro que coloca historiadores num patamar elevado não merecido na maioria das vezes. História não ensina nada. Mas, ao pensar sobre isso, relembrando as décadas de 60 e 70, quando a maior parte dos países sul americanos estava sob regimes militares, e de repente ― não maximizem o valor da “luta popular” ― deram lugar à quase em todos os mesmos países, regimes de semi ou pseudo esquerdas. Agora, a nível mundial, inclusive nesses, tende a governos de semi ou pseudo direita, incluindo a maior nação do mundo até agora. Percebemos paralelamente a isso, um crescimento absurdo de teocracias e antagonismos baseados em extremismos religiosos.

O que pensar? A maior parte das pessoas precisa de lideres, de messias, de salvadores, de guias e gurus. A maior parte dos seres humanos, por preguiça ou insegurança, necessita ser guiado, conduzido. E esse, a meu ver, foi a causa do fracasso de todas as experiências comunitárias, desde o inicio do mundo. Não ficarei citando exemplos históricos, pois como escrevi acima, a história não nos ensina nada, ou não nos fazer mudar o rumo. Está lá apenas para registrar os fatos. Como um jornal velho. E não há incoerência no fato de eu estar citando antigas experiências comunitárias, sejam elas de qualquer cunho ideológico, pois essas experiências estão ai, na frente dos seus olhos. E a quem mora em periferias especialmente tem diante de seus olhos. Nem é preciso ligar a televisão.

A maioria das pessoas precisa de lideres. Elas confiam e esperam deles a resolução de todos os problemas. Desde uma cesta básica, uma dentadura, um passe de ônibus, sua saúde, seu emprego. Querem que tudo lhes venha com o menor esforço possível. E confiam em lideres que lhes dê esse conforto. Mas e quando essa confiança falha? Quando as pessoas percebem que esse conforto ao qual acreditam ter direito, embora fosse pago por seus próprios esforços sob a forma de impostos, por exemplo ― falha? Quando esses salvadores não o salvam, quando esses gurus não lhes guiam, quando esses lideres não os lideram, quando… Quando se percebe que o fator humano falhou, buscam fatores extra-humanos… Alguns passam a acreditar em sociedades secretas que os mantêm as coisas como estão, outras acreditam em seres de outros planetas que traçaram desde há muito os destinos do nosso planeta e por tabela em nossos destinos em particular. Mas a maioria, descrente dos homens, se volta a deidades…

No Brasil, estamos diante de uma crise moral, política, e de caráter, com lama e merda saindo de todos os buracos conhecidos. Diariamente noticias sobre outro e outro político (salvadores, gurus, mantenedores de nossas necessidades) envolvido em falcatruas e roubalheiras. As pessoas se sentem enganadas, claro. Mas da mesma forma que políticos, temos noticia de roubalheiras e falsas promessas por lideres religiosos, pessoas sendo enganadas, vilipendiadas, humilhadas por seres que vivem no luxo e na riqueza enquanto seus mantenedores se mantém na pobreza… A exata mesma relação.

Então, qual o motivo de as pessoas se revoltarem contra políticos e não contra lideres religiosos?

O motivo é simples: lideres religiosos representam a deidade, perfeita e absoluta, que na falta do humano, irá dar todas as suas necessidades, de um jeito ou de outro, sem maiores esforços. O preço que pagam, mesmo sabendo estar sendo enganados, vale a pena, segundo eles. Afinal, “deus fala” pela boca daquele ser. E se ele é falho ― roubando e enganando os seguidores ― é porque assim a deidade o permite.

Percebam que é tudo do mesmo jeito, que as coisas funcionam exatamente iguais.

E enquanto os seres não perceberem que, se deixarem de preguiça e de querem tudo sem maior esforço, não precisarão de lideres, de gurus, de mentores, salvadores. Não precisarão das esmolas desses cidadãos. O preço pago por esperar dos outros o que não tem vontade ou capacidade de ter por conta própria está sendo pago, e a preço alto, nesses dias. O futuro começou… Ou o futuro acabou? “Não há um Deus senão o Homem.”

 

14/12/2016

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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