Entrevista a Matheus Narcizo Sobre Editor’A Barata Artesanal

Matheus Narcizo .  

1 – Quando você criou a Editora Barata? Qual motivo apontaria como principal para a criação?

A Editor’A Barata Artesanal foi criada no início de 2010, pelo desejo e necessidade de publicar trabalhos de minha autoria. Cansado de não obter sequer respostas de editoras convencionais, decidi editar e vender meus próprios livros.

 

2 – O que seria essa produção artesanal de livros?

O processo de produção consiste em abarcar todas as etapas, desde a escrita, passando pela diagramação, impressão, criação da capa, encadernação (costura e colagem manual), acabamento e distribuição. Todo esse processo é feito por mim, num processo de absoluto artesanato.A vantagem é que trabalho com pequenas tiragens, a partir de 10 exemplares, então o autor não precisar despender grandes somas em dinheiro e pode controlar suas vendas de acordo com a demanda.

 

3 – Você diria que esta criação é uma forma de “driblar” as grandes editoras ou está mais atrelada à necessidade de apresentar/divulgar o seu trabalho?

Eu não diria “driblar”, pois tenho consciência de que não existe forma de competir com as grande editoras. É sabido que as editoras brasileiras, que antes já eram inacessíveis, estão sendo engolidas por gigantes americanas, o que torna o acesso muito mais restrito. Então, eu diria que é uma alternativa. E, sim, uma forma de um escritor altamente produtivo como eu, conseguir expor meus trabalhos de forma totalmente independente, mantendo todo o controle da obra. Ademais, “driblar” essas grande editoras, ou mesmo outras que se dizem independentes, mas que na maioria vivem do dinheiro de dinheiro publico, através de leis de incentivo à cultura, que como todos sabem, são conseguidos na maioria das vezes por meios tortuosos.

 

4 – Outros artistas também divulgam seu trabalho através da editora?

Sim. O objetivo inicial era divulgar meus trabalhos, mas logo no início outras pessoas começaram a se interessar, e passei então aceitar outros trabalhos. Nesses cinco anos, foram mais de sessenta  títulos, em vários gêneros, como poesia, ocultismo, ensaios. Normalmente são pessoas que tem necessidade e desejo de ter seus trabalhos em livro impresso e não tem também oportunidades nas grandes editoras.

 

5 – A editora tem rendido bons resultados? Tem conseguido divulgar e vincular suas obras?

Bem, Depende do que se possa considerar com resultado bom. Como falei acima, são mais de 60 títulos em cinco anos, trabalhando sozinho. Uma média um por mês.O que, para uma “editora”, cujo trabalho é feito por uma única pessoa, sem nenhum tipo de apoio ou investimento externo é absolutamente positivo. Claro que temos que levar em consideração que são sempre pequenas tiragens, no máximo 200 exemplares, e sem nenhum esquema de distribuição, com a divulgação feita no boca a boca e nas redes sociais, mas, dentro da proposta da “editora”, considero positivo.

 

6 – Qual é o seu grande desejo com a editora? Sonha transformá-la em algo grande?

Não, não almejo transformá-la em algo grande, em nenhuma editora sob os padrões do mercado editorial.  Aliás, perceba que sempre uso o termo editora entre aspas, pois não considero a “Editor’A Barata Artesanal” como de fato sendo uma. Minha auto-definição é “Artesão de Livros”, e assim pretendo que continue. Claro que gostaria de ter um capital maior, para investir em equipamentos melhores de impressão, melhorando meus processos, mas isso sempre dentro de um modelo de empresa individual. Ademais, tenho objetivo de também poder dispor de recursos para bancar a publicação de livros que considere de alto valor literário, sem que o autor precise dispor de seu próprio capital.

 

7 – Você acha que há pouco espaço para escritores no Brasil? Há pouco interesse em lançar novos pensadores no país? Acredita que isso esteja atrelado à falta de qualidade na educação brasileira? Há algum outro motivo?

Sim, falta. Mas a questão é bem mais complexa. O que existe é a falta de disposição de risco, coisa inerente a qualquer negócio, por parte das editoras. Basta se observar o que é editado e comercializado no Brasil. No momento, há uma “moda” de se publicar mulheres e livros de “cunho social”. pois perceberam que há um publico ávido por mulheres escritoras. É uma questão social muito ligada ao momento cultural e político extremamente complicado que vivemos. Há quase uma ditadura sobre essa questão. Basta observar quem são as”estrelas” das  chamadas feiras literárias, que aliás de literárias nada tem, sendo apenas feiras para vendas de livros. E de fato, não há interesse em lançar “novos pensadores”, pois o interesse é puramente mercadológico. Se o que vende é biografia de gente famosa, auto-ajuda, zumbis, games e coisas ligadas aos pseudo movimentos sociais, por que alguma editora se arriscaria publicar livros fora desse contexto? Claro que entendo que uma editora é um negócio. Mas não é apenas isso. Editoras precisam ter uma visão menos linear do mercado e arriscar. No passado, por exemplo, tentei convencer algumas editoras de meu trabalho, toda a literatura que produzo, se fosse bem divulgada e vendida com apoio correto de “marketing” venderia muito bem, pois estou certo de que há publico para ela. Mas não querem arriscar, não querer trabalhar de fato. Querem pegar o que vende sozinho e arrecadar os lucros facilmente.

E se isso está atrelado à falta de qualidade na educação? Claro, mas não é uma consequencia, mas um fator. É um circulo vicioso. A qualidade da Educação no Brasil despencou nos últimos anos, mas ele é fruto desse sistema carcomido onde existem inúmeros culpados, num espectro que abrange desde o sistema político ao eventual leitor, passando por empresários. A sociedade hoje vive do imediatismo, do agora, do plástico, da imagem, da velocidade absurda imposta aos sentimentos, e portanto numa sociedade dessas, com certeza a verdadeira literatura é uma espécie de grama numa briga de elefantes. A internet, com seus livros virtuais e redes sociais onde cada um se considera um pensador, um poeta, um filósofo também é outro fator. Essa pseudo socialização nivelou por baixo o nível da literatura. Aliás, embora eu até tenha blogs e eventualmente publique algumas coisas na Internet, não considero nada do que é publicado “eletronicamente” como literatura. Se faço é por pura necessidade de tentar chamar a atenção das pessoas ao meu trabalho. A Internet não matou a literatura, mas matou o escritor de verdade. ela não é a responsável pela morte da literatura, mas é o agente catalisador dessa morte.

 

8 – Acha que é preciso ter “capital inicial” para ser um escritor conhecido?

O “capital inicial” de um escritor deveria ser apenas seu trabalho, sua capacidade em produzir bons textos, mas na prática é preciso ter alguns fatores, segundo a regra imposta. Basta olhar para os livros que vendem: biografias, testemunhos de “minorias”, feminismo, romances espiritualistas. De preferência de alguém ligado à midia. As editoras grande enfiam um monte de dinheiro pagando jabá para programas de entrevistas na TV, etc. Portanto, se o escritor não pertence a nenhuma chamada “minoria”, se não é alguém ligado a nenhum movimento “social”, se não está na mídia, seu capital inicial se resume a zero. Há uma ditadura cultural firme e clara, que expurga todos aqueles que não fazem parte desse jogo. Um circulo de fogo que gira ao redor do poder vigente. Então, a única coisa que resta é justamente tentar atingir as pessoas que não fazem parte desse circulo, apesar do fato de que esses estão em situação de profundo desespero, amedrontados e sem dinheiro, e sem condição de se estabelecer como pensadores. Uma situação critica, onde o pensamento plural é esmagado. Onde o ser que pensa e cria sua arte pessoal é tratado como indigente. Afinal, arte é individual, não existe arte coletiva, e a ditadura do pensamento coletivo, que de fato não existe, os transforma em monstros.

É isso!

Abraço e obrigado pelas perguntas.

Matheus Narcizo

5 1 Vote
Article Rating
Assinar
Notificação de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários