Poesia – 33 R.P.M. – Relicário de Poesia Marginal

1.
Ser poeta é ser mal querido, mal amado, mal pago e fodido
E por vagabundo ser chamado e por artista ser confundido
Pois ser poeta é esmurrar a própria boca e quebrar os dentes
Um sádico cretino, lavando as mãos no sangue de inocentes.

2.
Pois ser poeta é ser imundo, nojento, desalmado, impiedoso
Desprezível é o poeta, ao mesmo tempo covarde e corajoso
O que nada prova, mas que tudo que provar, provando tudo
Porque poeta prova que nada é provado e à prova sobretudo.

3.
Ser poeta é bater punheta, pensando no próprio umbigo
Fazendo da amante Poesia e de si mesmo melhor amigo
Devorar a própria merda e engolir do próprio regurgito
Chorar a própria desgraça e ensurdecer ao próprio grito.

4.
Ser poeta é amaldiçoar a própria santidade, demonizar a dor
Roer os ossos e triturar suas misérias dentro de liquidificador
Um pobre coitado a si mesmo e o tirano aos olhos de cegos
Pois ser poeta é ser um cristo martelando aos próprios pregos.

5.
É ser insano um tanto e outro pouco ser um doente mental
Ter a vergonha da própria sorte e assassinar o que é imortal
Pois ser poeta é ser sem vergonha, sem dinheiro, desgraçado
Não achar que nada valha à pena, não achar nada engraçado.

6.
Ah, mas ser poeta é ser injusto e cruel e capaz de ser maligno
Porque o mal ao poeta é estar acima do bem, esse ser indigno
É falar sobre o que não conhece e aquilo que ele não pensa
E sobre o saber de que poesia é um crime sem recompensa.

7.
Pois, ser poeta é arranhar a pele flácida do próprio rosto
E beber de seu sangue amargo com raiva e com desgosto
Afundar nas areias de desertos humanos, areias do destino
Depois jogar no ventilador toda a merda de seu intestino.

8.
Ser poeta aritmeticamente é não tem contas a pagar e prestar
E contar de dois em dois os anos que ainda podem lhe restar
Guardando num relicário toda a maldita dor do ser humano
Enquanto o imperador abaixa o polegar no Coliseu romano.

9.
E quanto ao objetivo, um poeta transforma em substantivo
Aquilo tudo que é apenas no olhar do professor um adjetivo
Pois na língua da Poesia a gramática é lúdica, efeminada e vil
Servindo-se dela e prostituindo-a, mas não sendo a ela servil.

10.
E ainda queres saber mais sobre que penso sobre poetar ser
Pois então escute aquilo que eu falo, com meu falo a crescer
Que ser poeta é ser tarado, sempre com o pinto duro na mão
Sem medo de comer a buceta da filha ou a bunda do irmão.

11.
E ser ainda poeta é poder ser bicha ou um comedor infiel
Pois nem mesmo à própria Poesia um poeta precisa ser fiel
E se há no mundo algo que mereça algo como a fidelidade
Algo é esse que por entre nomes atende ainda por felicidade.

12.
E me pediram um manifesto sobre ser poeta, o ser que é um
Mas Poesia não é manifestação de nada e sequer de nenhum
E para que não pergunte ainda o que é poeta e o que é Poesia
Peço que se fodam aqueles que pregam amor com hipocrisia.

13.
Pergunte o que é Poesia ao seu pai e ele lhe dirá com certeza:
“Vai trabalhar seu vagabundo imprestável, deixe de esperteza”
E então, se queres ser poeta e não apenas o escrevedor idiota
Mande-o tomar no cu, arrume emprego, empreste do agiota.

14.
Pergunta a uma puta, e ela saberá lhe responder correto
Mas se queres ser poeta enfie antes o pinto naquele reto
E depois com o pau cheio de merda enfie na sua garganta
E verás que a ira de uma bela é mais deliciosa que a janta.

15.
E pergunte, pergunte sempre o que é ser poeta, não esqueça
A pergunta deixe sempre latejando aos berros na sua cabeça
Mas o dia em que a pergunta deixar de te interrogar, desista
Pois a Poesia te largou feito uma puta traidora, e não resista.

16.
É fácil escrever lindas palavras, sorridentes e vazias, amigos
Difícil é ser poeta daqueles sem tetos, sem casacos e abrigos
Pois em noites frias e solitárias Poesia, não esquenta a mão
E não é escrever que irá encher de oxigênio o seu pulmão.

17.
Então toma a cachaça antes de dormir sob a ponte mórbida
Enxergue o vulto de Lou Reed vagando sob a névoa sórdida
Depois encontre Rimbaud e Augusto pelas esquinas escuras
E num buraco de esgoto cumprimente ratos de unhas duras.

18.
Mas não digas que não sabes ainda o que ser poeta, afinal
Pois que o poeta é aquele faz cada um, o dia do juízo final
E já que ainda não morrestes e nem o mundo acabou ontem
Experimente ser poeta já ou espere que a história te contem.

19.
Esqueça o que te ensinaram na escola sobre poetas e Poesia
Corra o risco, corra depressa antes de acontecer à profecia
E conte até dois, porque até o dez é demais até ao Professor
Mas não conte ao Padre, ao Bispo ou sequer ao Confessor.

20.
E eu, que falo por mim, não dou conselho a mais ninguém
Falo este poema que foi feito a pedido de um certo alguém
Que queria de mim algo que eu não poderia dar por não ter
Pois o que posso dar é o que fui, não aquilo que posso ser.

21.
O poeta que nunca acordou com fome, jamais poeta será
E o que nunca dormiu bêbado, nunca à poesia pertencerá
A fome e a bebedeira não fazem de mim um poeta, é claro
Mas os poemas amorosos não fazem de ti algo que é raro.

22.
O poeta não precisa ser bêbado, mas nem sóbrio tampouco
Da mesma forma que de médico todo doente tem um pouco
E, também, mas entretanto não contudo, não precisa morrer
Basta uma pequena ferida que o faça sentir o que é o sofrer.

23.
E em falando em morte e sofrimento, ele não pode ser rico
Pois a riqueza ao contrário da pobreza, como diz Frederico
Gera o caos e é ele quem gera a luz, mãe de toda a criação
E como eu já disse, a luz é apenas um buraco na escuridão.

24.
Mas o que tem um poeta contra o dinheiro, aí querem saber
Ao que respondo que nenhuma causa existe contra o poder
E nada há contra dinheiro honesto, ganho por seu empenho
Mas contra o dinheiro sujo e injusto ganho com o desdenho.

25.
Mas quem até agora entendeu que o poeta tem que ser fodido
Entendeu errado a minha preleção e espero não tê-lo confundo
Com minha retórica sobre o dinheiro e sobre a própria Poesia
Mas um poeta pode ser tudo, mas nunca o filho da hipocrisia.

26.
E então falemos sobre putaria, pornografia e sobre sacanagem
Pois estas são artes sinceras, honestas, longe de ser vadiagem
É que ao foder, trepar, masturbar ou mesmo dar a sua bunda
Chega o poeta ao mar, num barco bêbado que nunca afunda.

27.
Mas e como começar um poema, é arguto o questionador
Pois não há dom nem herança genética, onde o inspirador
Há sim o esforço, a leitura, o momento e um buscar eterno
Pois se existe Deus e os outros, existe também um inferno.

28.
E às moças que querem ser poetas, que não sejam poetisas
Falando apenas de princesas rosa, belas e amarelas brisas
Sejam nojentas, impuras e trepem feito vadias pelas esquinas
Porque a Poesia não perdoa aquelas que são apenas meninas.

29.
Mas quanta pretensão a minha, dirão aqueles muito invejosos
E agora retomo o vigor de meus poemas sujos e indecorosos
Estando pronto a falar que de poetas e de inveja conheço bem
Pois fui ao Inferno com Rimbaud e à Casa das Rosas também.

30.
Mas logo eu a falar sobre o que precisa saber um poeta, digo
Eu, que cuspi na cara do Demônio e escarrei no jardim antigo
Que nunca andei de braços dados com eunucos imperadores
E que jamais declamei poemas para bancas de examinadores.

31.
Mas ainda assim pedem que eu comande, que eu explique tudo
Num manifesto perfeito à minha imagem e semelhança contudo
Então digo, sem receio de errar, pois de erros não tenho medo
Que a maldita sacanagem é da Poesia um surdo e tolo segredo.

32.
E porque sou redundante e inseguro, solto um grito de artista
Que ser poeta não é necessidade como ser puta ou jornalista
E que na verdade ser poeta é um ato dispensável por natureza
Pois existe Poesia, mas decerto existem artes de maior beleza.

33.
E acabo agora minha explicação, sobre o que é um ser poeta
Mas não leve em consideração, pois não sou nenhum profeta
E finalmente ser poeta é nunca jamais chegar a nenhum fim
Pois nenhuma finalidade há na Vida e nem na Poesia enfim.

26/11/2013

Do Livro:
Troco Poesia Por Dinamite
Editor’A Barata Artesanal, 2014

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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