Poesia – A Balada de Izabel Cristina

1 –
“Vicious, you hit me with a flower
You do it every hour
Oh, baby you’re so vicious…” – Lou Reed – “Vicicous

Desde pequena seus dedos percorriam suas entranhas
Em busca de sentidos brutos e de sensações estranhas
E nem os tapas e reprimendas contiveram seus desejos
Pois ela queria mais que farpas, as harpas dos beijos.

Sonhando com cacetes, delirando com chupadas na vulva
Izabel que era flor se tornou a fruta, mas nunca doce uva
E muito o breve girassol girou ao redor do sol nascente
E o que era desejo de maçã virou a maldição da serpente.

E ela pulou muros, ergueu a saia e mostrou sua buceta
A todos aqueles que pediam e que a ela batiam punheta
E a magrela de ancas largas sabia a arte de seduzir machos
Que caiam a seus pés feito bananas doces de seus cachos.

Um dia um amigo lhe mostrou o poder de gozo jorrar
E sentida ela pensou que amigos não são para esporrar
E nunca mais ela jorrou, nunca mais explodiu em gozo
Pois gozar com amigos era injusto e um tanto perigoso.

 

2 –
“Dá-se assim desde menina
Na garagem na cantina
Atrás do tanque
No mato” – Chico Buarque – “Geny e o Zepelim”

De quatro ela fez oito e de dez fez a festa até chegar ao cem
Perdeu a conta de tantos e já não sabia o que era estar sem
E até na escola o professor disse: “Essa magrela é bem jeitosa”
E ela: “Ah, vem cá me comer que eu sou mesmo bem gostosa.”

Alimentando o fetiche de ser apenas ingênua princesa
Comia a todos com uma fome inesgotável de tigresa
Assim Izabel passava os dias, entre a voraz e a devorada
Imaginando sempre ser a primeira vez que era deflorada.

Era fácil foder com Izabel, os baixos e feios vinham antes
Mas aos belos ela desprezava, na caridade de hierofantes
E a esses, pobres belos sem feiúra apenas restava sua visão
Enquanto batiam punheta assistindo às séries de televisão.

E de punhetas na escola a noites de foda em acampamentos
Conheceu Izabel também as noites de desejos e sofrimentos
E ela que não sabia o que era brincar de boneca na infância
Foi brincar de ser mãe por fruto de uma fugaz circunstância.


3 –
“Sexual Healing is good for me
Makes me feel so fine, it’s such a rush
Helps to relieve the mind, and it’s good for us
Sexual Healing, baby, is good for me” – Marvin Gaye – “Sexual Healing”

Mas maternidade não aplaca o desejo e mais ela queria foder
E fodia porque queria, até onde chegava seu desejo de poder
Fodia porque podia, e quanto mais gozava mais queria gozar
Até que outra barriga quase a fez pensar em de noiva se casar.

E enquanto pais, filhos e espíritos santos se ajoelhavam a ela
A sua sanha de vadia a transformou mais que vaca em cadela
Mas ela ria e dizia: “Importante é gozar não importa o preço.”
Sabendo que tinha sempre um macho a pagar por seu apreço.

E por um pinto graúdo Izabel trocou sua liberdade de puta
Sem saber que um dia soldado nunca se pode fugir da luta
Mas por um caralho a lhe arrebentar as pregas foi ao canto
Imaginando que a vida era sorrisos e até tinha seu encanto.

Izabel tinha uma existência de merda, fedia feito cachorro
Mas o enorme caralho satisfazia a seus pedidos de socorro
E antes que eu prossiga na história dessa puta do universo
Devo lembrar que sou só poeta cantando o que é perverso.

4 –
“De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada” – Chico Buarque – “Geny e o Zepelim”

E agora sigo a contar a balada da mulher chamada Izabel
Mas não por raiva e por ser apenas soldado em seu quartel
E enquanto escrevo histórias de arrepiar cabelos da bunda
Sei que sou apenas seu puto e ela minha doce vagabunda.

O doente quase morto, feridas curadas, lambidas feito cadela
E Izabel vivia mais uma vez uma história que não era a dela
E de síndrome em síndrome, imortalidade de poderes doentes
Perdeu a moral, chupou o pau, fez o mal e perdeu seus dentes.

E ficou trancada dentro do próprio egoísmo tanto tempo agora
Que de sua vontade deixara de ser proprietária, dona e senhora
E das vontades das bichas, tolos de pau grande e dos moleques
Foi aprisionada a seus próprios demônios abanando os leques.

Fodia sem culpas e sem medos, nem mesmo as menores do mundo
Mas mentiras tem pernas curtas e acabam em menos de um segundo
E o castigo lhe veio a cavalo, num cavalo alado, um potro garanhão
Pois ela sabia que jamais sairia daquilo sem um risco ou arranhão.


5 –
“Aí, saí do vale do meu tormento,
E fui cair no lago do teu amor;
Ali, aliviei todo o meu sofrimento,
E ui, me vi gemendo de prazer que nem de dor.” – Gal Costa – “Sexo e Luz”

Não pensem que Izabel não tentou ser santa, pura, viver de siririca
Mas sucede que amor de pica é o que fica e seu amor era por pica
E jamais, nem quando uma mulher a quis deixou seu amor de lado
Pois a ela amor puro é aquele do caralho duro do homem pelado.

Mas desprezado o asno se foi batendo asas de borboleta de plástico
E do bar roxo até a casa amarela ela vomitou litros de suco gástrico
Para a alegria de moleques em jogos jogados longe do computador
Jogos de caça a onça de olhos pintados em uma guerra sem pudor.

Mas nem sempre, como nas histórias que acabam com final feliz
Um anjo sedutor que lhe chega de longe, gordo, eunuco e infeliz
Prometendo roupas, véu, grinalda e uma boa carreira de catequista
E como ladrão que rouba ladrão, perdão de cem anos ela conquista.

Grades não lhe caem bem, e diante das câmeras as primeiras entregas
E dai pelos matos com gatos de sapatos que lhes arrombam as pregas
Qualquer dia é noite, qualquer jogo é pôquer e blefe sempre a jogada
Mas ela não sabia que a traição é um jogo perigoso de carta marcada.

 


6 –
“E eu te farei as vontades
Direi meias verdades
Sempre à meia luz
E te farei, vaidoso, supor
Que és o maior e que me possuis” – Chico Buarque – “Folhetim”

A rainha da morada do sol desfilava seus cabelos vermelhos tingidos
E eram verdadeiros seus suspiros, pequeno o pau, orgasmos fingidos
Roupas caras, sandálias lotando o armário, uma princesa requintada
Mas a todos os machos da cidade ela era apenas marmita requentada.

E enquanto o ancião tem a mandíbula arrancada ao golpe cirúrgico
Ao asno que relincha ela se entrega num ritual macabro e litúrgico
Mas não tem limite seu desejo, sem limites a sua vingança prazerosa
E entre o prazer da vingança e vingança de prazer, fode a indecorosa.

Com todos fodeu, de sadios a loucos, dos cegos e doentes a moribundos
E a tantos vadios que ficou conhecida como “A Dama dos Vagabundos”
E nos leitos de hospital, esgueirou na escuridão e fodeu o quase morto
Que à beira da morte ainda imaginou que era ela um anjo quase torto

A brancos ela deu, com pretos fodeu, índios, roxos, qualquer cor servia
Ela não tinha preferência por cor quando o sangue da buceta lhe fervia
Tão sem freios era sua fúria, que na terra de “Bebel Que a Cidade Comeu”
Ela ficou conhecida orgulhosa como “Izabel Que a Cidade Também Fodeu”.


7 –
“Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás a beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés” – Cartola – “O Mundo é Um Moinho”

Se o prazer é sólido, desejos podem ser moídos num liquidificador
O que é sólido liquefaz, gasoso evapora, e mentira liquidifica a dor
E então volta a princesa banida debaixo das asas do doente moral
Imaginando imortal o tesão, que sem desejo é apenas algo imoral.

E o poeta interfere agora, nesta narração dessa história tanto comum
Tentando falar que poderia ser aquele que nunca foi, sendo nenhum
E se acaso estivesse este esses tantos que desfrutaram daquela buceta
Não teria tido existência com tanta poesia, tanta dor e tanta punheta.

E não pensem não ter buscado, afinal putas sempre foram seu legado
Não fosse isso, bem que o poeta poderia ter dado o cu a um delegado
Portanto, não imagine que ao contar a história tal como lhe foi dita
Ele mente, pois que mulheres são todas putas é naquilo que acredita.

Deixe-me contar agora da sua indecência e dos despudores sem fim
Dela que foi dama dos detentos e lazarentos, de Rainbow a Zeppelin
Não havia vingança e nem sede de justiça, apenas desejo e ponto final
Pois não é preciso desculpas para dar a buceta e gostar de foder, afinal.


8 –
Se o mundo é mau
E a noite vem
Acorda Isabel
Vem pra viver
Ah, Isabel
Vem Isabel meu bem… – Carlos Lira – “Isabel”

E das praias do litoral sul, dos bairros próximos e até de outros países
Chegaram machos para foder com ela, que era a rainha das meretrizes
Que em seu pensamento era puritana, mas no espelho uma mundana
Então quebrou o espelho, colocou botas de cano alto e se fez humana.

E o verbo se fez carne, da carne poesia e o poeta se fez real feito poesia
Feito verbo se fez gente, feito gente se fez prazer e nem tudo hipocrisia
E de ultimo de um séquito à rainha do prazer se fez de homem o poeta
Que feito assim a fez mulher que o transformou de tolo em um profeta.

E assim chegou ao final da balada de Izabel, mas não ao fim da história
E se não há moral nesta, como não existe em nenhuma sem uma glória
Deixo todos a pensar sobre como são as noites, as madrugadas e os dias
Pois a maior puta do universo faz do meu verso apenas doces covardias.

Por fim, aqueles que lerem a epopéia de Izabel, terão um pensamento
Se é ela a grande puta o poeta é um corno, isso é de fácil entendimento
Mas se deixo de herança a história sobre a intimidade da esposa amada
Não por infâmia ou tolice, e é por devoção é que ela deve ser chamada.

28/12/2013

Do Livro:
“Troco Poesia Por Dinamite”, 2014

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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