Poesia – A Morte da Puta

Ontem morreu uma puta, na rua, como sempre estava
Mas foi estranha a sua morte, que ninguém acreditava
Não foi ela encontrada morta, pelada sobre uma cama
E nem drogada e suja ao lado de um cliente de pijama.

Ontem a puta morreu e ninguém sabe se tem um nome
Apenas de Puta era chamada e Maldita o seu sobrenome
O jornal não deu noticia, ninguém comentou nos bares
Pois era apenas uma puta, daquelas destruidoras de lares.

Morreu ontem a puta e agora pouco aconteceu o velório
O padre com crucifixo e o cafetão com jeito de simplório
Ficaram solidários os clientes e órfãos da hipocrisia santa
E naquele dia incomum chegaram em casa antes da janta.

A puta morreu ontem, e não era hora ainda dela morrer
Todos sabiam que as putas não morrem, fazem escorrer
Assim morreu a puta, escorrendo pelas imundas sarjetas
Festejaram as santas enquanto maridos batiam punhetas.

Morreu a puta, de infarto, miocárdio, doença do coração
E nem o padre e nem o bispo por ela fizeram uma oração
Porque era uma puta e ao inferno deve ir tanta imundice
E na hipocrisia digna de santos, restauraram sua crendice.

Ontem a puta morreu e antes ela do que morrer um santo
E antes chorar os seus filhos do que qualquer outro pranto
Que morram as putas e a seus rebentos e que viva a moral
Pois a morte de uma puta faz justiça ao impuro e ao imoral.

Morreu ontem de uma morte anunciada a puta desvairada
Foi uma morte limpa, silenciosa, não uma morte depravada
E em seu caixão sem qualidade, coberta de flores fedorentas
Jaz a puta, rodeada pelas lágrimas falsas de almas lazarentas.

Morreu ontem a puta e as ruas ficaram desertas, sem prazer
E não há mais nada o que chorar e nada o que possam fazer
Morreu uma puta e agora as suas carnes ardem nas chamas
Mas a cada uma puta morta, nascem dez das nobres damas.

27/01/2014

Do Livro:
Troco Poesia Por Dinamite
Editor’A Barata Artesanal, 2014

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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