Poesia – A Quarta Morte

Ando triste feito poeta que perde a poesia ou jogador a sorte
Ou um pai que perde ao filho por desistência e não por morte
A perda de um falecido é a dor suprema, falam muitos e certo
Mas poucos sobre a perda enorme que é deixar de estar perto
E eu, que poeta ainda tenho a poesia e nos jogos o perdedor
Sei que tão intensa quanto de uma, da outra o pai é sofredor.

Agora de dentro da minha mais profunda melancolia, imploro
Que atendam ao pedido de um condenado ao limbo inodoro:
Não tenham filhos, pois eu não quero o desgosto de ter netos
Pois não sejam feito o que me consideram, criadores de fetos
E das covas mais rasas, de onde abortados gritam por socorro
Também grito alto, que não me matem daquilo que eu já morro.

E não chorem por um lábio partido ou por um dente quebrado
Pois parti aos meus por sua guerra, general traído e maltratado
Um pai não carrega um filho na barriga, dirão as mães chorosas
Mas o carrega sobre os seus ombros em suas guerras vitoriosas
E se é pouco o carregar, empurra também na ladeira em declive
Para que aprenda a cair e levantar, pois é da forma que se vive.

E por que reclamas da sorte quando não jogas, poeta maldito?
Perguntaram aqueles que desconhecem aquilo que me foi dito
E lhes direi apenas que daquilo que não existe, jamais reclamo
Mas que por justiça daquilo que foi feito e dito é que eu clamo
E da justiça conheço apenas do olho por olho e dente por dente
E se arranquei um perdi todos, olhos arrancados por uma doente.

E agora as sirenes estão gritando e os lobos uivam a minha porta
Uivos são lamentos e não há luar do avesso, apenas boca morta
E nas sombras age a traidora, nas sombras divinas de adoração
Fogo em seus olhos, chamas entre as pernas e nada no coração
E eu que sempre fui apenas o bom morcego que deixou o inferno
Clamo por justiça que jamais chegará enquanto eu não for eterno.

Há um túnel que carrega ao fim do mundo, e nele um garoto surge
Brilho em seu olhar, uma faca entre os dentes e seu pau duro ruge
E a traidora abaixa as calcinhas e o garoto lhe encharca de porra
A putaria acaba ali antes que o esperma pelas pernas lhe escorra
O garoto sorri e ela roga para que santos escondam o seu pecado
E dentro da bíblia sagrada manda aos deuses o hediondo recado.

Mas antes que o ano acabe, uma bicha negra comerá seu repasto
E ainda que dor irrompa em meu escroto, do gado ela será pasto
As sombras do dia escondem a maldição do traído, três da tarde
E sua buceta é fodida enquanto nas dores o meu saco ainda arde.
Crueldade e maldade, traição é roubo e roubaram as minhas vidas
E com o fruto do meu trabalho alimentei suas três bocas atrevidas.

Agora preciso deitar, cabeça dolorida, a maldita dor de cabeça
Ainda é dia, mas eu preciso morrer dormindo antes que anoiteça
Não há remédio que chegue, ou bebida que faça esquecer a dor
E entre drogas e bebida, prefiro desligar a merda do computador
Enquanto ainda existem putas no mundo e enquanto existe tesão
Que não custe tão caro quanto as obras completas de um artesão.

Mudaram minha história, contaram ao seu modo a pura inverdade
E agora sobra de mim apenas uma sombra, sem rastro de vaidade
Não finjam que não me conhecem, mas podem fingir que sou morto
Finjam que sou monstro, quase um demônio das trevas, roto e torto
Sou apenas um morcego fugido do inferno, inferno que ele escolheu
E hoje sou grande, antes era apenas o incrível homem que encolheu.

Há incêndios por todos os cantos, há sangue nos prédios e montes
As putas estão correndo, bichas e mendigos deixando suas pontes
Não há aonde correr, o sangue vermelho tinge as estrelas amarelas
Suas mentes estão podres, carcomidas pelos vermes e as sequelas
Não há mais retorno, nem caminho seguro, a humanidade apodrece
Já não existe escadas subindo, e a única escada é aquela que desce.

Fui condenado por ser justo, acusado de crimes cometidos à revelia
E ao deixar a prisão, a liberdade era coisa que não tinha mais valia
A pena cumprida, o carrasco ainda queria minha cabeça na bandeja
Porque a mão que te acaricia nem sempre é a mesma que lhe deseja
Eu tinha fome, uma fome que não é de pão, ou de sangue a escorrer
Uma fome que eu tinha que saciar ao menos um ano antes de morrer.

Quanto a mim, terei ido embora quando a próxima manhã chegar
A eternidade do nada espera por mim, a morte não pode esperar
Sinto saudades de mim, a saudade de alguém que nunca existiu
Mas que sempre soube morrer, e que a três outras mortes resistiu
E antes de ir, ainda tenho que terminar o meu efêmero testamento
Deixando àqueles que ficam, apenas os restos do meu tormento.

Minha poesia, aquela que roubaram de mim a golpes de martelo
Ganhará a eternidade, é tão certo quanto o preto não é o amarelo
Eu os eximo de culpa por ela, sem culpa, mas não há lucro por tal
A maldição do feijão e do sonho é minha herança, legado imortal
Pois enquanto minhas carnes viram poeira e minha mente esfarela
Eu estarei lhes carregando comigo para dentro da minha esparrela.

O certo seria pedir que alguém segure minha mão até o fim esperado
Mas não quero as lágrimas daqueles que me deixaram desesperado
Quero morrer a sós, nenhuma amante irá entender o meu gesto final
Porque eu sempre morei sozinho, sempre morei comigo mesmo afinal
E não há pior dor que solidão que se toca feito instrumento de corda
Retirando a musica triste que da solidão eterna sempre nos recorda.

Então aproveitemos bem a última noite, paguem a próxima cerveja
Porque Bela Morte é a ultima das amantes que a minha alma deseja
Abram suas carteiras, bebam comigo, e atendam meu ultimo pedido
Matem a maldita, e façam antes que da morte tenha me arrependido
Eu quero silêncio eterno, vislumbrar a quietude da eternidade vazia
E que os ratos devorem suas carnes como devoraram minha poesia.

Sim, eu sou um bendito maldito e minha maldição mantém a escrita
Pois fujam de mim e retirem meu sobrenome da sua certidão restrita
Mas não há o que ser feito com o sangue a correr-lhes nas artérias
Sangue maldito que lhes cobre de vergonha e lhe atira às misérias
E se não há o que reconhecer a mim, o sangue também não importa
A não ser que o enxerguem apenas como parte de sua matéria morta.

Se comecei falando de poetas e jogadores que perderam seus pares
Termino falando sobre famílias que perderam pedaços de seus lares
E sobre mim mesmo que fui perdido e jogado na lixeira em cacos
Sem que tivessem o cuidado de embalar a carne podre em sacos
E termino da forma que comecei, sobre como fui morto num outro dia
E sobre ser dolorido morrer sem poder falar dos ataques de covardia.

Mas morro por mim, e não pensem que morro por causa de ninguém
Pois a morte é minha, e jamais a dividirei com nada ou com alguém
Quisera morrer antes de matar, mas em meu relógio chegam as horas
Chega o momento de acertarmos nossas contas, senhores e senhoras
Há duas armas na minha mão agora, e uma delas disparo contra mim
Mas com a outra cometo o meu senso de justiça antes do próprio fim.

27/05/2014

Do Livro:
Troco Poesia Por Dinamite
Editor’A Barata Artesanal, 2014

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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