Poesia – Anticristo

Minha poesia sempre foi torta, muito quadrada ou redonda
Nasceu de um aborto criminoso, a morte de forma hedionda
Um espelho rachado, pecado original e cópia de sentimentos
Poesia satânica, anticristã e a expiação aos meus tormentos.

Minha poesia sempre foi estupro, crime sem perdão ou fiança
E nunca escrevi coisas bonitas e não faço poesia para criança
Escrevo sobre as putas que perderam o trem das onze horas
Mas sobretudo sobre aquelas que são chamadas de senhoras.

Minha poesia não cheira rosas e nem contempla a beleza pura
Sempre falei de sujeira, de gozos de bichas e da maldade dura
Escrevo deitado na sarjeta, não em banheira bebendo escocês
E queria matar de sede aquele maldito poeta carioca burguês.

Minha poesia não entra em academias ou saraus sorridentes
Ela é tão podre e fedida quanto o que sobra dos meus dentes
Renego qualquer origem ou escola, sou o analfabeto da poesia
E faço poemas por mim com o fim de acabar com a hipocrisia.

Minha poesia é meu vomito, meu escarro, um cuspe sangrento
Na tua cara, fingido leitor que finge sentir meu ódio lazarento
E quando finges que sentes, sinto que mentes e ambos mentimos
Sobre aquilo que somos, desejamos e sobre tudo o que sentimos.

Minha poesia é uma ejaculação de sangue, num gozo de morte
Sem religião e moral, que não acredita em seu destino ou sorte
E se não adorna aos altares e nem é servida em jantares luxuosos
Serve ela de oração aos pagãos, fervida na panela dos mentirosos.

Minha poesia não geme e nem teme sua estupidez e ignorância
Toda poesia é morte e ela não treme diante da sua intolerância
E se não for forte, não será a sorte a livrá-la de todo mal amém
Pois é a poesia o que nos liberta do medo daquilo que vai além.

Minha poesia, que de minha nada tem, mas de tua menos ainda
Termina do mesmo jeito que começa e morre no corpo que finda
E ao acabar, que não seja feita mártir e nem aceita como religião
Porque minha poesia é o anticristo, mas o seu nome não é legião.

16/02/2014

Do Livro:
Troco Poesia Por Dinamite
Editor’A Barata Artesanal, 2014

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

5 1 Vote
Article Rating
Assinar
Notificação de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários