Poesia – Carta a Um Poeta Morto

“Nunca tive a intenção de ser poeta. Foi sem querer. Desculpem!” – Barata Cichetto, 31/12/2014

– E somente agora, que o encontro sem respiração
É que entendo a mente por detrás de seu coração.
Tarde agora, reconheço e nada mais pode ser feito
A não ser desfazer aquilo que não pode ser desfeito.

Agora somente, diante de seu corpo inerte e gelado
Penso em falar sobre coisas que eu tenho protelado.
E nem quero lembrar sobre tudo o que esqueci agora
Ou esquecer do que lembro sobre a morte e sua hora.

Perdão não é para sonhos e não aos poetas, portanto
Como escrevestes a mim e esqueci de ler por encanto.
Então não peço perdão, se também de nada adianta
Porque a morte te caiu bem antes do horário da janta.

Logo tu, que a chamastes em todas tuas horas mortas
Que a amastes mais que a vida e suas estreitas portas
E que dela fizeste a mais digna das amantes fielmente
Agora jaz inerte sem uma rima sequer que a comente.

Nasci de uma poesia ou uma poesia nasceu de mim
Eu nunca aceitei tua poesia como não aceito teu fim
Mas entendo que as duas coisas são partes do jogo
Que junto com tua poesia maldita eu joguei no fogo.

De surdo fingi aos teus apelos e de cego à tua visão
Preferi acreditar nos mestres políticos e na televisão.
E sem perceber que a mim é que falavam tuas rimas
Joguei no lixo os livros que falavam das tuas estimas.

Neguei-te abraços em nome de mentiras mal contadas
Mas não sou isento de culpa por histórias requentadas.
Quem mente também rouba e é ladrão quem acredita
Nas mentiras apenas por uma porca vaidade maldita.

Sei não escolhestes a morte, ela era tua forma de viver
Como era a negação da vida, sua forma de sobreviver
Então, agora, nesse momento que não tens mais escolhas
Posso apenas rabiscar poesia como fizeste em tuas folhas.

Morrestes por mim várias vezes e nunca percebi jamais
Porque era minha a tua vida e tua era a vida dos demais
Se morremos ao nascer e decidimos por estar vivos de dia
À noite quando nos bate a solidão optamos pela covardia.

E agora, que do caixão exalas um cheiro nauseabundo
Dou-te enfim o reconhecimento apenas por um segundo
Pois como pai fostes poeta e como poeta apenas um pai
E se é pouco o tempo que reconheço, este em mim esvai.

Sei do quanto implorastes apenas pelo que era seu direito
E entendo agora que tinhas tantos erros que eras perfeito
Que dos teus acertos sobramos nós, fruto maior da paixão
Pois plantastes uma árvore, cuja madeira virou seu caixão.

Acusei-o de nunca ser nem augusto nem dos anjos, um tolo
Mas agora sua voz não ecoa mais do tumulo e quero o bolo
E não importa se não é “Aniversário” ou se o roquenrol rola
Fechem o maldito caixão que estou atrasado para a escola.

Reneguei ao que representava autoridade, até a genética
E ao renegar-te reneguei a mim mesmo e minha dialética
Não há criatura sem criador ou pecado sem condenação
E ao negar-te não uma, mas cem, condenei-o a negação.

És agora um poeta morto, mas não um mártir ou um santo
Jamais pedistes salvas de canhão ou dinheiro nem um tanto.
E tardiamente entendo que neguei o que era gratuito te dar
Mas agora não posso de novo contigo aprender a caminhar.

Deixemos política e diferenças por conta dos cromossomos
Mas mesmo assim estaremos ainda distantes do que somos
E se houvesse outra vida e nela existisse o perdão e a poesia
Gostaria de ser teu pai e te pediria desculpas pela hipocrisia.

25/12/2014

Do Livro:
Troco Poesia Por Dinamite
Editor’A Barata Artesanal, 2014

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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