Poesia – Carvão

Deitado em um caixão, adornado com flores, cheiro de vela nas narinas
Burburinho e falas em meio à lagrimas, bêbados vomitando nas latrinas
Piadas misturadas com lamentos, e o cheiro do café com o de podridão
Garotas desfilando a elegância e tias velhas se arrastando com lentidão.

– Era um sujeito bacana! – Dirão amigos do bar onde bebia o vagabundo
Enquanto a mãe aos prantos balbucia que era o melhor filho do mundo
– Nunca haverá outro homem como ele! – Dirá quiçá uma das concubinas
Outras, incluindo fortuitas, com as mãos nas bucetas sorriem adulterinas.

As tias velhas, os tios de bengala e os primos distantes cumprirão o social
E crianças inocentes descobrirão outro brinquedo olhando para o castiçal
Enquanto o amigo chegado olha para a bunda da viúva e sorri matreiro
Pensando que acabou o seu penar e a existência fortuita de punheteiro.

– Ele sabia foder bem! – Pensará a que chora passando batom nos lábios
O soluçar a fará balançar a bela bunda, observada pelos amigos sábios
– Era um desgraçado! – Decerto dirá entre dentes uma das abandonadas
Que entre corbelhas de flores divide o perfume com outras apaixonadas.

Em um momento, gritos histéricos de mulheres de maquiagem borrada
Lembrando de seus orgasmos levando a mão sobre a bunda esporrada
E romperão o silêncio fúnebre numa oração pagã ao morto desgraçado
Enquanto a ultima piada sobre putas é contada pelo bêbado engraçado.

– Já vai tarde, seu filho da puta! Foda-se no Inferno! – Dirá a esposa traída
Enquanto as garotas negras cantam “doo-doo-doo” numa canção retraída
– Que o fogo lhe seja brando! – Rezam os filhos que sonham com herança
Fazendo suas contas de quanto lhes chegará depois da macabra dança.

É quase hora, aumentam o fedor das flores, o calor das velas e o choro
Desconhecidos lembram seus feitos, juízes delitos não cometidos no foro
E cafetinas cobram dinheiro não gasto no puteiro com as putas da vida
Enquanto banqueiros com um documento na mão uma conta indevida.

– Que descanse em paz! – Reza o religioso. E nada mais pode ser feito
Apenas acender a chama e deixar o fogo realizar o trabalho perfeito
– “Das cinzas às cinzas!” – Diz a lenda sobre os que chegam ou se vão
E se o pó da areia é o pó dos vivos, dos mortos o que resta é o carvão.

09/02/2015

Do Livro:
Troco Poesia Por Dinamite
Editor’A Barata Artesanal, 2014

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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