Poesia – Crucificados

Pelatos enxaguou suas mãos em um cálice de mel
Afirmando que jamais condenaria a justiça
A criatura que por estar dentro de um bordel
Sempre achou que o mundo tinha cheiro de carniça
Onde crianças eram assassinadas em potes de fel.

Então Amadalena deixou em um monte
Pesadas cruzes de sua pesada solidão
Porque o pús que bebera direto da fonte
Seria o grande prazer daquela multidão
Que a abandonara no início da ponte.

Amadalena despachou a população alguns recados
Que naquela noite aconteceria um espetáculo
Em que ela entregaria seu corpo em mercados
Quando seria ela o único e real receptáculo
Daqueles que pedissem perdão por seus pecados.

Enquanto Jesus padecia de braços abertos na cruz
Transformando sua dor em coisa muito pequena
Amadalena falecia de pernas abertas com pús
Então Jesus beijou as feridas de Amadalena
Ofertando o prazer que a morte lhe conduz.

Amadalena lhe jogou a toalha bordada
Pedindo que lhe enxugasse o sangue com pús
Depois terminou seu sofrimento enforcada
Pendurada ao braço direito da cruz
Debaixo do olhar da multidão crucificada.

1/1/1980

Do Livro:
“Arquíloco”, 1981

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

DEPOIMENTO

Poesia boa, pura, em compasso de sofrimento. É preciso colocar esses poemas logo em letra de forma, impressa e ponto final. - Página do Livro - Diário Popular - 21/08/1981
Henrique Novak
São Paulo - SP
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