Poesia – Meu Outro Fim

Chega ao fim outra história que nunca foi escrita
Sou morto, mas não estou, que a verdade seja dita
Perdi a ternura, endureci e esqueci do meu pranto
Mas não fui transformado em mártir nem em santo.

Sou um sádico, um masoquista, quase um louco
Emagreço, esqueço de mim, tudo é muito pouco
Romances nunca lidos, e poemas nunca sentidos
Escritor maldito, a maldição dos amantes falidos.

E não escrevo por mim, mas àquele que precisa
Desabafo ao safado bendito e à lésbica indecisa
Vícios impregnados de delírios, a doença e a dor
E minha sina é sempre ser chamado por ditador.

E eu, que das estrelas e das putas fui namorado
Que com pesadelos casei e forniquei feito tarado
E quando cresce a Lua, sou lunático, lobisomem
Um pesadelo àqueles que de noite não dormem.

Outro romance e outro livro de poemas chorosos
Lamentos de um perturbado em sonhos dolorosos
Aos dezesseis fugia da escola e ia trocar poemas
Com uma lésbica cheia de desejos e problemas.

Que existência de merda a minha, de esposa e filhos
Um carreira de trabalho, e vida correndo nos trilhos
Poesia feita a lápis, fogo em meus livros de ocultismo
E eu ainda acreditando no poder único do catolicismo.

A religião nos rouba o direito ao eterno do momento
Com mentiras tolas sobre um paraíso no firmamento
Quero o que é meu por direito e dever, e quero agora
Dinheiro, prazer e uma dentadura nova sem demora.

Nas madrugadas aos mendigos da rua, leite e café
Junto à meretriz caridosa, uma mulher de muita fé
Depois fodiamos debaixo do viaduto à beira do rio
E ela contava sobre ter sido estuprada por um tio.

Agora, que todos os rostos se voltam noutra direção
Tenho dentes podres, dinheiro nenhum, só a aflição
E enquanto minha mulher dorme a poder de drogas
Olho seu corpo e sinto que ainda terei outras sogras.

Olho ao lado, na escuridão da sala, livros na estante
Haverá tempo ainda de ler o último, tempo restante?
É certo que a esses livros confiei toda minha verdade
Mas agora tenho olhos fracos pelo cansaço e a idade.

Mas o tempo abre buracos na pele, enormes cicatrizes
Rios de risos e suor, histórias de esposas e meretrizes
E ao mirar meu espelho, é apenas cansaço que enxergo
Num rosto que desconheço, visto pelo olhar de um cego.

E agora é o fim, meu outro fim e não tenho a esperança
Que é o oposto brando do que chamamos de lembrança
E se chegar até o momento foi a minha sina ou teimosia
Estou certo que eu vivi para poder escrever outra poesia.

03/02/2015

Do Livro:
Troco Poesia Por Dinamite
Editor’A Barata Artesanal, 2014

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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