Poesia – O Ativista

A respeito de um comentário de Thina Curtis


Existirá um tempo em que lutas sem bandeiras serão entendidas
E as guerras do Homem por si mesmo piamente compreendidas
Estamos longe, distantes da realidade, e não existem ideologias
Daquelas que enxerguem além e que se mostrem como elegias.

Perdi muito tempo acreditando e querendo a crença alheia
Atado em uma jaula e sendo tratado feito o idiota da aldeia
Crenças são grades que prendem de dentro para fora o ser
Grades indestrutíveis que impede a humanidade de crescer.

Confesso que atirei pedras, rompi ritos e empunhei bandeiras
E não sei se eram certos os mitos ou se eram pedras verdadeiras
Apenas que eram pesados os tempos e fortes os ventos do norte
E gritar e correr apenas questão de sobreviver à própria sorte.

Decerto que também acreditei e também que fui tolo bastante
Tão certo quanto acreditei que não era o único idiota restante
E de certo em certo, fui de crença em crença buscando a mim
Até entender que toda política e religião são ideologias do fim.

Crenças sempre foram mentiras, da esperança gêmeas irmãs
Belas amantes dos tolos e belas putas alimentadas por xamãs
E acreditar que ainda pode existir um rasgo fútil de esperança
Nos faz aceitar como salvação o sorriso inútil de uma criança.

E se um dia pintei bandeiras de vermelho e de preto pintei muros
É que não existiam outras cores possíveis naqueles tempos duros
Mas agora, todas as cores são idênticas e nenhuma me contenta
E na paleta do poder todas são a mesma, do cinza até o magenta.

Estou certo em estar errado e errado ainda quero muito estar
E se errar é a certeza, ainda quero todo o erro que me restar
Pois nada pode ser feito por ninguém que não seja por si mesmo
E nenhum ser tem o direito de agir pelos outros a torto e a esmo.

Traço meu caminho, pago minha passagem e minhas botas
Se é errado onde ando, trace por si mesmo as próprias rotas
E mesmo que agora trilhes as ruas que mostrei por afeição
Entenda que os caminhos sempre mudam a mão de direção.

Então, minhas crianças que juram saber o destino a chegar
Saibam que seus guias poderão a seus olhos míopes cegar
E eu que não mereço nenhuma espécie de reconhecimento
Apenas sorrio e penso o que seria do muro sem o cimento.

Portanto não me chames de ativista, pois nada mais me ativa
E é só por mim que luto, jamais por qualquer causa adjetiva
Então podes retirar de mim a responsabilidade de outro alguém
Pois não vendo nem compro ideias, nem a verdade de ninguém.

Não posso aceitar o titulo que me destes tão elegantemente
E não se ofenda por não querer o que querem ardentemente
Mas não quero senão ser dono de mim, ninguém a comandar
E nenhuma causa que não sejam minhas pernas para andar.

E haverá um tempo em que a única ideologia será no ser um
Naquilo que se pode fazer por si em prol de todos ou nenhum
Pois não há na mente do homem desde os tempos das cavernas
Aquilo que pregam os enganadores com suas mentiras eternas.

31/01/2015

Do Livro:
Troco Poesia Por Dinamite
Editor’A Barata Artesanal, 2014

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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