Poesia – O Santo Maldito e o Bendito Poeta Puto

E entre porres, porradas e putas eu morri
Entre vômitos, sarjetas e bucetas escorri.
E se era Julho ou se era Outubro não recordo
Mas se ontem estava morto, hoje não acordo.

Poesia é feito asa de barata e ferrão de abelha
Algo que enoja e arde e queima feito centelha.
Doces são para confeiteiros, poesia aos amargos
Que com ela te esbofeteiam e te causam estragos.

Morri por poesia e não quero a uma outra citar
Viver é para fracos e poetas podem ressuscitar.
Eu tenho veneno na alma, sou a morte da hipocrisia
E se não sei ser homem, posso ao menos ser poesia.

Entre mortos e feridos, sou aquele que caminha só
Meu caminho é feito de merda, montanhas e de pó.
Fui um rei entre as putas e entre rainhas um puto
E agora que morri, por mim mesmo estou de luto.

A poesia é o murro na cabeça e a mordida de vampiro
E nos miolos espalhados na calçada é que me inspiro.
Cerrar meus punhos e abrir feridas com as mãos nuas
E nem sei quantos minutos ainda faltam para as duas.

Trago um cigarro, a maconha detesto o cheiro de bosta
E trago comigo uma cicatriz, propriedade e não aposta.
E se morro e por mim mesmo choro a morte anunciada
Corro antes que chegue por minha poesia denunciada.

Beijo uma mendiga na boca, pois as ruas são tão duras
E penduro o quadro na parede feito com cores obscuras.
Sangue escorrendo nas ruas, tripas podres da sociedade
E eu ainda nem sei o endereço da tal Rua da Felicidade.

Exercito a garganta, respiro fundo e trago outro cigarro
Um peido, um tiro, cuspo grosso e solto o meu escarro.
Não adianta tua buceta dolorida e inchada de tanto foder
Quando teu gozo foi falso e teus gemidos foram de poder.

Conto histórias de mim, falo comigo sobre o que é solidão
Sei bem como falar sobre a dor, a ganância e a ingratidão.
Na esquina fode a puta, meio menina, meio mulher idosa
E eu nem sei ainda quanto custa uma trepada libidinosa.

Preciso acabar depressa, comprei um revolver do traficante
Apenas uma bala alojada no crânio e o suspiro recalcitrante.
Sem tempo para arrependimentos, apenas acabar com a dor
E ser transformado em morto santo por um maldito ditador.

O sangue espirra, pintando de vermelho o armário da cozinha
E agora sabem que minha morte não foi conquistada sozinha.
Deixo de mim os restos, limpem a sujeira que fizeram comigo
A lembrança por herança e gemidos guardados no baú antigo.

E às virgens mentirosas que foderam para salvar-se da perdição
Que continuem a se arrastar pelas esquinas sujas da maldição.
E morram à míngua ou que morram pela espada com que luto
Porque eu sempre serei o santo maldito e o bendito poeta puto.

15/06/2014

Do Livro:
Troco Poesia Por Dinamite
Editor’A Barata Artesanal, 2014

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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