Poesia – O Sonho Acabou de Ser Assassinado

Estou certo que ele lutou por sua existência
Quando bruscamente lhe a atiraram a tiros
Porque ali acabaria seu sonho de resistência
Junto com seus últimos dolorosos suspiros
Quando arrombaram a porta de sua consciência

A poucos passos do grande portão de correr
Tiros alcançaram aquele homem que parado
Sem tempo de balbuciar a palavra morrer
Caiu dentro da bacia de sangue coagulado
Que de seu corpo agora começara a escorrer

Ele jamais teria tempo de perguntar
Ao seu assassino o porque daquele ato
Ou ao menos de dizer deixa estar
Que um da iremos acertar um pacto
Então poderei por isso lhe perdoar

Gritos femininos orientais ecoaram no ar
Tendo ao fundo um matador a discorrer
Que porque o ama poderia então lhe matar
Alguns disseram deixam o sangue correr
Enquanto com essas coisas pudermos ganhar

Uma das balas atingiu sua peluda cabeça
Que coisas belas e boas imaginou por nós
A morte lhe apanhou antes que aconteça
Uma coisa que o transformaria em algoz
Daqueles que esperam que o bem desapareça

Imagine apenas uma sociedade sem assassinatos
Que eu lhe direi que é apenas sua imaginação
Porque a morte dentro do ser humano é inato
Enquanto existir neste planeta qualquer nação
Que tenha um legislador chamado Poncio Pilatos

Aqueles bichos que lhe pareciam causar doenças
São aqueles mesmos que agora trajados de terno
Discorrem que por qualquer coisa que aconteça
Jamais poderão esquecer daquele poeta eterno
Que sempre procurou sonhar com nossa cabeça

Eu sonhei com ele galantemente montado
Sobre um animal pelos nossos doces mares
Quando acordei o sonho tinha acabado
Com pedaços de seu cérebro pelos ares
Pelas balas que ele tinha contra lutado

Retalharam seu corpo alugando os pedaços
Depois o embalsamaram colocando em um museu
Sem esquecer daquela parte de seu braço
Que lutou até a morte em um moderno Coliseu
Contra ursos que mandam apertados abraços

O que nos resta neste momento é chorar
A morte desse ser que nos deixou de bobeira
Sonhando com um mundo sem sangue a derramar
Suas roupas rasgadas serão a nossa bandeira
Com que conquistaremos a liberdade de sonhar.

9/12/1980 (Manhã seguinte ao assassinato de John Lennon)

Do Livro:
“Arquíloco”, 1981

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

DEPOIMENTO

Poesia boa, pura, em compasso de sofrimento. É preciso colocar esses poemas logo em letra de forma, impressa e ponto final. - Página do Livro - Diário Popular - 21/08/1981
Henrique Novak
São Paulo - SP
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