Por Quê Barata.Me?

Porque Barata

Mais tarde, quase à hora do entardecer, várias baratas enormes, de um tom bem escuro de marrom avermelhado, emergem como gnomos do lambri, e vão em direção à despensa – entre elas, baratas grávidas, com filhotes translúcidos anexos, como uma escolta. À noite, nos silêncios tardios entre bombardeios, disparos de armas antiaéreas e foguetes caindo, elas se fazem ouvir, ruidosas como camundongos, roendo os sacos de papel de Gwenhidy, deixando trilhas e pegadas de merda da cor de seus corpos. Parecem não gostar muito de coisas moles, frutas, legumes, coisas assim, preferem a solidez das lentilhas e feijões, algo que possam roer, barreiras de papel e gesso, interfaces duras para serem perfuradas, pois elas são agentes da unificação, você sabe. Insetos natalinos. Estavam no fundo da palha da manjedoura em Belém, tropeçando, subindo, caindo reluzentes num reticulado de palha dourada que a elas certamente parecia estender-se por quilômetros para cima e para baixo – uma espécie de cortiço comestível, de vez em quando perfurado por suas mandíbulas de modo a perturbar algum misterioso feixe de vetores, fazendo com que as baratas vizinhas despencassem de bunda para cima e antenas para baixo por cima das outras, as quais se agarravam com todas as patas àqueles caules dourados sempre a tremer. Um mundo tranqüilo, a temperatura e a umidade permaneciam quase constantes, o ciclo do dia incluía apenas uma suave variação de luz, primeiro dourada, depois cor de ouro velho, depois escuridão, e luz dourada outra vez. O choro do bebê chegava a seus ouvidos, talvez, como explosões de energia vindas de uma lonjura invisível, quase despercebidas, por vezes ignoradas. O seu salvador, você sabe…

(“O Arco-Íris da Gravidade”, Thomas Pynchon – Tradução Paulo Henriques Britto)

Há mais de vinte anos sobrevivo construindo sites para internet. Comecei a dar meus primeiros passos em meados de 1995, estudando por revistas de informática e debulhando códigos HTML em Notepad. A partir de 2000 esse trabalho passou a ser minha principal fonte de renda, além de prazer, já que para mim é extremamente prazeroso.

Minha outra  fonte de sobrevivência, essa não financeira, mas tão ou mais prazerosa é escrever, coisa que faço desde a adolescência, quase que ininterrupta, portanto, há cerca de 50 anos.

Não tenho a conta exata de quantos sites construí, e menos ainda de quantos textos escrevi. A primeira passam das centenas, e a segunda dos milhares, sem contar quase quarenta livros que publiquei de forma artesanal ou por plataformas de auto-publicação, já que nenhuma editora nunca se interessou em publicar-me, coisa que já admiti, jamais acontecerá enquanto eu estiver vivo. Quem sabe, depois que eu morrer, por alguma dessas convergências, minha literatura seja “descoberta” pelo Mercado e passa a valer algo aos meus descendentes.

E é francamente essa a coisa que mais me deixa triste, porque é extremamente injusto que pessoas que nunca sequer se deram ao trabalho de ler algo que escrevi, e mais ainda, me abandonaram, venham de alguma forma lucrar com algo que se deu apenas por meu exclusivo esforço, talento e trabalho.

Tenho dois filhos que alegam ser comunistas, e que assim aprenderam a jamais valorizar a dedicação paterna e a escorraçar quem não seja escravo de suas ideologias porcas. Seria justo, portanto, que eles viessem a obter qualquer lucro com algo que eu tenha produzido, e que ademais dependeram exclusivamente de mim, como indivíduo criador? As leis podem dizer que sim, mas eu afirmo que não, e se houver algum resquício de humanidade e do sangue que lhes herdei espero que abram mão do trabalho egoísta e individualista (arte é puramente isso) em prol do coletivo que eles tanto defendem. Seria senão justo, ao menos honesto, embora eu não acredite na honestidade deles.

De qualquer forma, o objetivo deste “Barata.Me” é criar um depositário de tudo aquilo que escrevi, pintei, desenhei, enfim trabalhei, durante toda minha vida. Será um trabalho enorme, que talvez dure um ou mais anos para ser concluído, e só espero viver o tempo necessário para concluí-lo, e assim deixar o meu legado à humanidade, já que a única herança que deixo aos meus descendentes é o mesmo que me deram: o ostracismo. A vingança é a origem das leis, e a minha é clara: tirem suas mãos sujas de cima de meu trabalho.

Barata Cichetto, 18/07/2021

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Genecy
Genecy
5 Meses Atrás

Como bons comunistas que presumidamente são, e, se o destino e os acasos da vida e do pós-vida colocarem a sua obra como objeto de reconhecimento com justa recompensa financeira, evidentemente, os seus herdeiros nem de longe irão socializar esse “capital”. Comunista gosta de dinheiro, principalmente quando é o dos outros. Os fatos falam por si.

Let the times roll.