Prefácio – Rolando Castello Júnior – Prefácio e Não Notas

Rolando Castello Júnior . 

Ten Years Gone

Amigos & amigas do rock, aqui estou eu prefaciando este livro de meu amigo Barata. A principio a idéia era que eu fizesse umas notas ou adendos, principalmente sobre os Diários de Bordo, mas isso não rolou e explico o porquê.

Como tenho esse dom de falar mais do que a boca e me empolgo demais com as idéias que me cativam, também me ofereci ao Barata, para dar uma revisada no texto.

E assim o fiz, e ao fazer isso, me dei conta de que não faziam falta minhas observações sobre as gigs narradas nos Diários, visto que essas são o sentimento e vivência de quem as escreveu, ademais outros dois problemas acontecem nesse momento que escrevo estas mal traçadas linhas.

O primeiro é que por aqui estamos produzindo alguns shows da Patrulha, gravando e mixando algumas musicas novas e trabalhando em outras produções, em segundo lugar tudo isso toma um bom tempo e estamos em cima do laço também para editar esse livro a tempo de lançá-lo no show de Sampa no Manifesto.

Então preferi vir aqui prefaciar e me expressar em relação a esse trampo de amor do Barata, sim amor pelas letras, pelo rock e pela amizade que nos une.

Ao reler tudo, ou parte do, que ele escreveu sobre a Patrulha e sobre mim, confesso que fiquei bastante emocionado.

Outro lance que me emociona e me compele a participar desse projeto e o fato de que este é um livro totalmente artesanal, o Barata faz tudo, imprime em casa, diagrama, cola, costura, e tudo feito a mão, como se fazia há séculos atrás, em um mundo onde tudo tem que ser superlativo, super produzido e super digital, esse trabalho verdadeiramente alternativo me seduz.

É um trampo de resistência, dedicação e amor, e nisso eu e a Patrulha somos muito parecidos com o Barata.

Voltando ao livro, ao lê-lo, me dei conta de que grande parte dele, como os Diários de Bordo, a saga do Compacto, o primeiro Sitio Oficial da Patrulha, enfim todas essas coisas que fizemos junto com o Barata, o grosso se concentra no ano de 2003, portanto como a canção do Led, já se vão dez anos.

É um bom distanciamento para rever e repensar todos aqueles acontecimentos.

Emocionei-me muito com o texto do Dudu Chermont, relembrei todo e cada um dos shows citados nos Diário de Bordo, com a lembrança de nossos assistentes na estrada, do magnífico condutor de nosso ônibus, o Alemão, das loucuras, aventuras, casos, dos amigos, groupies, contratantes, promotores, pura memória emocionante.

Notei que houveram outros shows que o Barata nos acompanhou e que não estão nos Diários, me lembro de um em especial o Sonora Rock Fest em Chapecó, preciso perguntar a ele sobre isso.

Se eu realmente fosse fazer adendos aos Diários tenho certeza que daria outro livro, me lembrei de histórias que é melhor nem contar, são por demais comprometedoras.

Quem sabe um dia eu mesmo venha escrever um livro, apoio e incentivo do próprio Barata não têm me faltado para que assim o faça, vamos ver.

Mas uma lembrança faço questão de contar, porque têm muito a ver com nossas idas juntos ao oeste de Santa Catarina.

No Diário de Bordo relativo a Concórdia, o Barata cita um guri chamado Lucas, me lembro bem dessa galera que foi de Chapecó ver a gente tocar em Concórdia na primeira vez que lá fomos e que o Barata não estava junto.

Fazia um frio infernal, quando chegamos ao Tulipa para tocar á noite, não havia ninguém na porta, pensei que a casa estava vazia, nem bem entramos na casa a Vânia proprietária do pico, já nos levou para um canto, porque tínhamos que gravar uma reportagem para a Globo local e lá fomos nós, logo também nesse canto, começaram a surgir um monte de guris e gurias nos cercando para ver a entrevista, o repórter, boa gente não manjava nada de rock e se esforçou para fazer o melhor possível, num dado momento falando sobre as musicas que tocaríamos naquela noite, ele se vira de microfone em punho, para aquela gurizada que nos cercava e pergunta se eles saberiam cantar a capela uma canção da Patrulha. Já tava frio, mas gelei mais ainda, pressentindo o vexame, aquela gurizada de vinte e poucos anos, em nossa primeira ida ao oeste catarinense, não deveria conhecer nenhuma musica nossa, para meu espanto, umas cinquenta ou sessenta vozes juvenis começaram a cantar O Berro, canção do segundo disco da Patrulha de 1981, não sei de meus camaradas de banda, mas fiquei arrepiado e tive que me controlar para as lágrimas não rolarem, de tanta emoção, pelo carinho e dedicação á banda por parte daquela gurizada. Realmente foi um daqueles momentos em que tudo parece fazer sentido e que valeu a pena ralar na estrada tanto tempo.

Depois disso fomos ao camarim, passamos pelo salão lotado e soubemos que aquela seria uma noitada mágica, como têm sido todas as vezes que vamos tocar para aqueles lados.

Também me emocionei muito lembrando de meus companheiros de estrada dessa época, o Luiz, Marcello e Rodrigo, uns baitas músicos e amigos leais, foi uma grande honra tocar com essa galera tanto tempo.

Finalmente mas não menos importante, notei que o Barata ficou bastante chateado com o episódio do Compacto, ele achou que na ocasião não recebeu o devido mérito pela idéia, fica aqui nossa desculpa, mas assevero veementemente, que nunca houve má intenção ou usurpação de sua idéia e hoje tenho certeza de que ele sabe disso, o que aconteceu e acontece, é que no fragor da batalha nem sempre sabemos como colocar corretamente as coisas, isso acontece também quando se está nos corres da estrada e na agitação frenética do dia a dia de uma banda em franca movimentação, com milhares de compromissos ao mesmo tempo, então podem ocorrer uma falta de atenção á um fã, ou uma comida de bola como a do Compacto, mas são rarezas e nunca por falta de educação ou reconhecimento aos nossos fãs e colaboradores.

Afinal só estamos nessa por vocês, muito obrigado por todos esses anos.

Posfácio do Prefácio.

Na entrevista realizada há dez anos atrás, não respondi a duas perguntas formuladas pelo Barata, ou como eu gostava de chamá-lo em nossas viagens, o Pero Vaz de Caminha do Rock, como a vida é cheia de mistérios e dengos, vejo que mais que nunca essas perguntas não respondidas têm uma pertinência fabulosa, ainda mais porque somam-se a elas dez anos mais de minha vida e da Patrulha, então creio que esse é um momento mais do que apropriado de respondê-las, então vamos lá:

24 – (Legado)

O que imagina que deixará de legado, de herança, enfim, todos têm um papel na vida a cumprir. Qual acredita que é o seu? Acha que o cumpriu?

Rolando: (Não respondeu)

Rolando responde agora com dez anos de atraso.

Me lembro bem, que na ocasião dessa entrevista, no momento em que eu estava cumprindo 50 anos de idade, e estávamos no apogeu criativo daquela formação da banda com o disco Missão na Área 13, e toda a expectativa positiva em relação a esse disco, com o lançamento e respectiva tour, meu ânimo e esperança estavam nas alturas e realmente não via com bons olhos a pergunta sobre o tal do legado, não me parecia pertinente falar sobre isso em um momento que eu erroneamente achava que só seria de ascensão e de um futuro luminoso e glorioso com aquela formação e momento da Patrulha.

Como dizem, quanto mais se sobe, maior é a queda.

Na verdade esse disco que deveria ser a redenção de um trabalho que já levava seis anos, foi o canto do cisne dessa formação da Patrulha.

Em um primeiro momento fiquei até feliz por tudo acabar, pois ninguém sabe o quão difícil é ter que ser líder ou comandar uma organização, como o é uma banda de rock, é uma responsabilidade tremenda e terrível, a pessoa têm que tomar decisões, nem sempre bem quistas e nem sempre acertadas, mas esse é o papel do líder, papel esse que acaba até te isolando dos demais, é um trabalho dos mais desagraçados e solitários.

Mas também como dizem por aí, alguém têm que fazer o trabalho sujo.

Já em um segundo momento, me vi tendo que recomeçar tudo novamente do zero, fiquei tão injuriado com a banda, que mudei de cidade, me separei, vendi o bus da banda e por uns tempos me isolei como um ermitão no interior de São Paulo.

Mas o que isso tem a ver com o legado?

Absolutamente tudo, porque para se deixar um legado é necessário em primeiro lugar construir esse legado, em meu caso enquanto estava escrevendo a história, ou construindo meu legado, subi aos píncaros da glória e desci até as profundezas do inferno.

Fazer rock no Brasil, nunca foi fácil – não confundir rock com pop – tenho 47 anos de música e 45 anos de estrada profissionalmente, tive o privilégio de tocar com os melhores do México, Brasil e Argentina, foi muita sorte, caminhei ao lado de gigantes.

Nunca pensei em nenhum momento que por causa de minha poliomielite eu não pudesse tocar bateria, se eu tivesse pensado talvez nunca houvesse tocado bateria.

Realizei absolutamente todos os meus sonhos, de tocar com que toquei e nos lugares que toquei e haver podido conhecer cidades e países, conhecer gente interessante e inteligente e ter tido as mulheres mais lindas do pedaço, e ter feito amizades que viraram irmandades, foram com certeza milhares de shows, milhares de quilômetros rodados e voados, e milhares de horas em estúdios de ensaio e de gravação e tudo valeu a pena.

Sim já sei que sou um duro, nunca tive cabeça para ganhar e guardar a grana, mesmo porque nunca ganhei milhões, como a galera dos anos 80. Nos anos 60 e 70 se você conseguia pagar o aluguel, comprar equipamento, manter a banda na estrada e comer já estava ótimo. Nos anos 80 nos paramos quando todos começaram a fazer um rockinho e não rock e a encher os bolsos de grana, tenho certeza de que jamais iríamos querer ir fazer um playback no Chacrinha, sempre fomos assim, se há sistema somos contra.

Portanto com uma atitude dessas, sempre estivemos e ainda estamos fora de todos e qualquer esquema, nosso esquema ainda é o anacrônico e fora de moda, esquema de total independência, nunca fomos puxar o saco ou babar ovo de alguém para tocar em algum lugar, ou aparecer na televisão ou um programa de rádio.

Sou de uma época em que o que o músico queria era a admiração de seus pares e não aparecer no programa do Jô, como se essa fosse a consagração máxima de sua carreira.

Então creio profundamente que na verdade, meu legado foi haver conquistado a admiração e amizade de meus pares como o Paulo Zinner, Paulão, Marinho Thomas, Charles Gavin, Ivan Busic, Ivan Scartezini, Roby Pontes e outra porrada de bateras daqui e da Argentina, assim como de grandes músicos como o Pappo, Arnaldo, Andreas Kisser, Chizzo, Don Vilanova e tantos outros que tive o privilégio de compartir um som, em algum palco ou estúdio.

Ter o reconhecimento de ser um grande batera de rock aqui a na Argentina e haver influenciado tantos bateras bons daqui e de lá, é esse o meu legado na bateria.

Meu legado na cultura nacional de rock é de que junto com meus companheiros, mostramos que era possível se gravar sem estar numa gravadora, foi nos anos 70 termos uma projeção nacional sem praticamente nunca ter aparecido na televisão ou tocado na rádio, mostramos para a galera que era possível fazer uma tour e sair do bairro e da cidade.

Meu legado junto com a Patrulha foi haver colocado 3500 pagantes em um show em Porto Alegre, foi havermos tocado em Teatros Municipais e Ginásios de Esportes, para públicos de milhares, novamente sem rádio, televisão e gravadora e depois no século XXI, excursionar exaustivamente tocando nos bares da vida, com o mesmo tesão que tocávamos nos ginásios.

Ou seja o legado da persistência, da vontade e do trabalho exaustivo, é também o legado da solidão, de tirar leite de pedra e dormir em cama de pregos, é também o legado do milagre e de Deus ser brasileiro e patrulheiro, pois ainda estamos na ativa com a Patrulha sem NUNCA havermos feito um vídeo clip na vida.

E finalmente meu legado como homem é de que nunca ninguém em nenhuma circunstância, siga meu exemplo, por que você será um cara rico em reconhecimento, ainda que limitado, rico em noitadas inesquecíveis, você terá as melhores mulheres disponíveis, conhecerá as pessoas mais interessantes do planeta, terá amigos inesquecíveis, mas pagará um preço alto, pois muito provavelmente você será um pai ausente, um marido de merda, tua vida familiar será pífia, tuas finanças serão arruinadas em inúmeras produções mal sucedidas, provavelmente você não chegará ao 60 anos como eu, e principalmente não invente de tocar rock, vá tocar forro, axé ou sertanejo e passe o mais longe possível dessas duas palavras juntas ou separadas, Rock e Brasil.

Thats my fuckin legacy.


26 – (Balanço)

Em uma música do disco gravado em 79, a Patrulha do Espaço canta: “Já faz muito tempo que eu estou nessa estrada, e não pense, amigo, que eu não aprendi nada”. Isso reflete hoje sua vida? Faça um balanço rápido de sua carreira, quais foram os pontos altos e baixos dela e situe o seu momento atual, musical e pessoalmente falando.

Rolando: (Não respondeu)

Como fala aquele amigo de Londres, o Rolando meio que já respondeu essa pergunta acima.

“Mas ainda assim posso disser que chega a ser hilário essa canção ser de 1979 e falar que “já faz muito tempo que estou nessa estrada” então o que disser agora 34 anos depois, poderia ser “já faz muito tempo e não consegui sair dessa estrada”.

Na verdade quando você está na musica por amor e vocação, não existem pontos altos e baixos, existe o dia a dia do musico e artista que é muito parecido com o de todo ser humano, a diferença e que a maioria da galera sabe quanto vai ganhar no fim do mês e nós não, mas por outro lado essa galera jamais vai se divertir tanto como a gente.

O que quero dizer com isso é que na verdade os tais de altos e baixos são puramente materiais, a nível artístico tanto antes como agora, o fato de estar tocando com músicos bons e ainda poder estar na estrada tocando nuns picos bons pacas e outros nem tanto, mas mantendo uma produção artística musical sempre, já é um baita lance legal.

Eu poderia desfiar aqui um rosário de coisas erradas que rolam no show business nacional, poderia falar das sacanagens e injustiças que sofremos o tempo todo, poderia falar e dar nomes aos bois de um monte de gente absolutamente sem caráter ou de gente que o grande público conhece como uns puta artistas geniais e que na vida real são um bando de babacas de primeira, poderia falar deste ou daquele que faz as falcatruas aqui, acolá e alhures, mas prefiro me calar, ao menos nesse momento e seguir no meu caminho tentando sobreviver de minha musica e de meu rock, ainda sonhando e acreditando, menos é claro do que no passado, prefiro realmente assumir o que há alguns dias atrás um amigo em Curitiba me comentou sobre uma entrevista minha em algum lugar e que eu realmente havia esquecido, ele me falou assim:
– Curti demais o que você falou quando te perguntaram qual era teu maior arrependimento.
-Ao que respondi: sim e o que foi?
-Que teu maior arrependimento foi não ter ido embora do Brasil quando ainda era jovem.
Com certo mal estar, fiquei sem entender bem o que o cara havia gostado nessa resposta, mas logo em seguida ele emendou:
– Gostei demais da pergunta seguinte, que foi: qual era teu maior orgulho?
E você respondeu que foi não ter ido embora do Brasil quando era mais jovem.

É isso aí, obrigado Flavio Jacobsen por me lembrar de mim mesmo, às vezes a gente perde o rumo e nem se lembra mais o porquê das coisas.

E já que ainda estamos por aqui no brasilzinho esquecido por Deus e pelo rock, exceto quando vêm os gringos velhos, continuamos por aqui amando a bateria, os amigos que restaram, a estrada, o rock and roll e sabendo que já é tarde demais para voltar atrás, que queimamos a ponte que nos trouxe até aqui nesses 45 anos de estrada e não há mais como voltar atrás, o lance é seguir em frente, de preferência com a cabeça erguida, com a consciência limpa e com o sentimento de dever cumprido e quer saber mais, foda-se o resto.

Rolando Castello Júnior é baterista e fundador da Patrulha do Espaço.

Patrulha do Espaço no Planeta Rock
Luiz Carlos Barata Cichetto
Crônicas e Ensaios
Editor’A Barata Artesanal – 2013

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