Prefácio – Viegas Fernandes da Costa – Todos queremos existir, mas existir me parece uma grande ficção

Viegas Fernandes da Costa . 

Todos queremos existir, mas existir me parece uma grande ficção, ocorreu-me pensar certo dia.
Penso que corria o ano de 2002 quando, pela primeira vez, Barata eu nos demos por conhecer. Não pela carne, mas pelo verbo. Escrevia um mailingzine chamado “Comentário da Semana”, que distribuía através de uma conexão discada de internet. Os tempos eram primitivos na cibernética tupiniquim! Luiz Carlos Cichetto fez o convite, acaso não gostaria eu de publicar meus comentários no site que ele editava? Topei, desde que pudesse transformar o “comentário” em “Crônica da semana”. E assim se fez, por mais de dois anos, toda semana, na labuta de cronicar para A Barata, o site em questão. Melhor, portal, porque site ficava muito pequeno para o universo que aquele espaço reunia.

No início do século XXI o território virtual brasileiro era ainda bastante amador, isto para evitarmos o adjetivo “tosco”, repleto de gifs animados e corres berrantes. A Barata não! Espaço imenso, miríade de textos e autores, imagens, debates e, claro, rock’n’roll. Underground nas cores e na proposta! Havia um diferencial de qualidade em todo aquele trabalho construído pelo Luiz Carlos Cichetto, que incansavelmente editava e diagramava todo o conteúdo que ia ao ar, bem como estabelecia contatos, criava vinhetas, realizava entrevistas, escrevia seus textos e ainda gerenciava dezenas de colunistas que periodicamente encaminhavam seus materiais para publicação. Era tanta coisa, que ficava difícil acreditar que uma única pessoa estava responsável por manter tudo aquilo. Barata era quase uma lenda, pensava-no muitos, tentacular e alter-ego de uma comunidade de nerds. Nada, era sempre uno, o mesmo barbudo e magro que aparecia nas fotos das festas que organizava e que me respondia os e-mails. Surpreendente!

Sempre que me deparo com algum texto ou biografia de Antonin Artaud, entendo que a arte é urgência e emergência, em todos os sentidos que estas duas palavras podem carregar, e não vejo despropósito algum quando, ao ler esta autobiografia não autorizada do Barata, de reportar-me a estas urgência e emergência artaudianas. Luiz Carlos Barata Cichetto é urgência e emergência que transforma sua vida na matéria do seu fazer artístico-intelectual e se choca com um mundo higienizado, asséptico, ao qual incomoda com o desplante da sua existência.

Todos queremos existir, mas existir me parece uma grande ficção, ocorreu-me pensar certo dia, e faço questão de reiterar. Depois da experiência em A Barata, muitos foram os passos. Por vezes abandonavam-me as notícias de Luiz, como tão comum às amizades que se constroem na internet. Mas o cara é mesmo Fênix, e quando eu menos esperava, estava lá uma mensagem sua em minha caixa-postal, para um novo projeto, uma revitalização do site, uma revista que estava pensando publicar, uma rádio para a qual me convidava enviar material. Barata é barata, não há dúvida! E agora estas linhas para sua autobiografia, não autorizada. E, se não autorizada, permite-me então crer no exercício livre da memória empreendido por Luiz e percebido na leitura que fiz do livro. Vale lembrar, antes, que memória e lembranças são coisas diferentes, mas que aqui aparecem misturadas. Porque a memória é sempre a lembrança domesticada, ainda que livre. No caso deste livro, temos lembrança, mas temos também memória, porque permeada por uma escrita. Temos o exercício catártico de dizer para existir, escrita febril, torrente de verbo, mas temos também a presença de um narrador que organiza suas experiências e as revela ao público pelo filtro da memória. Assim, banal e extraordinário convivem lado a lado, tal qual na vida real, e nos é possível reconhecer um pouco desta personagem complexa em que se transformou Luiz Carlos Barata Cichetto. Reconhecer, como reconhecemos um nome na imagem, uma identidade na sombra, porque toda esta trama autobiográfica não autorizada é também ficção, como o é toda vida que experimentamos.

Para além, “Barata: sexo, poesia e rock’n’roll” contribui para compreendermos os deslocamentos nas margens paulistanas, no underground cultural. Luiz nos leva a passear pelos cinemas pornográficos, convida-nos a uma transa em um puteiro, a bebermos o desespero e a mágoa e a dançarmos enlouquecidamente ao som de uma banda de rock jamais alçada ao mainstream. Seu texto muitas vezes equilibra-se entre um Bukowski embriagado (êita pleonasmo maldito!) e um Bataille revelando-se na “História do Olho”. É desabafo e monumento de um homem ciente do tempo, este lugar miserável que nos traga em sua superfície porosa e movediça. É testemunho de entrega a uma causa que sabe perdida, mas nem por isso menos necessária.

Todos queremos existir, mas existir me parece uma grande ficção, ocorreu-me pensar agora que escrevo sobre esta autobiografia não autorizada de Luiz Carlos Barata Cichetto. É isto, personagem e protagonista, Barata nos apresenta sua fábula e sua verdade, desnuda-se vestindo memória, e nos entrega um monumento, relato de um tempo e um homem.

E, claro, existe!

Blumenau, 30 de maio de 2012.

Viegas Fernandes da Costa é escritor e historiador.

“Barata: Sexo, Poesia & Rock’n’Roll – Uma Autobiografia Não Autorizada”
Barata Cichetto
Editor’A Barata Artesanal, 2012
144 Páginas

DEPOIMENTO

Barata é guerrilheiro da cultura, alia a modernidade da comunicação virtual e o saudosismo dos bons e certeiros fanzines. Há muito que venho acompanhando, na medida do possível, seu trabalho. Versus lembra os manifestos da cultura marginal, os fanzines proscritos pela cultura massificante, brado e alento na madrugada. É muito bom saber que ainda existem militantes como Barata! Quem quiser conhecer melhor seu trabalho (porque além de editor, Luiz Carlos Barata Cichetto é também poeta, cronista, compositor, produtor, estudioso do rock, apresentador de rádio, artesão e etc...) - Facebook - 2012
Viegas Fernandes da Costa
Santa Catarina
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