Resenha – Ainda Respira – O CD Que Quase Ninguém Ouviu

Genecy Souza . 

O distinto leitor há de se perguntar: por que diabos alguém se dispõe a publicar uma resenha sobre um CD obscuro, e ainda por cima feito de maneira artesanal?

Aliás, quem ainda compra CD?

Primeiro: o CD ainda existe e ainda vende. É verdade que não mais como antigamente. Trata-se de uma mídia física, tachada de ultrapassada, cada vez mais restrita a um nicho de consumidores, que percebem no disquinho prateado uma qualidade sonora não comparável a do ‘ressuscitado’ LP, agora vendido como artigo de luxo, nem ao streaming fartamente oferecido por um variado número de plataformas. O catálogo é vasto, mas não tem tudo. Além do mais, o streaming de músicas e filmes está ao alcance de todos. Quanto à qualidade dessa nova forma de mídia, é assunto para um outro debate. Quero crer que há espaço para a convivência pacífica entre as formas de mídia, físicas ou não.

Segundo: um CD obscuro contém músicas e histórias. Quando esse CD é produzido de forma artesanal e, logo, limitada. Esse é o caso do Ainda Respira! O Melhor Rock do Brasil no Século XXI, tramado e criado por Barata Cichetto para acompanhar o número 4 da revista alternativa Gatos & Alfaces, em agosto de 2014.

A propósito. Quem ainda compra revistas alternativas em papel?

Sou um dos felizes proprietários da coleção completa da revista Gatos & Alfaces, especialmente desse número 4, que possui como chamada de capa uma matéria sobre o Black Sabbath, banda que possui um lendário álbum chamado Vol 4. Coincidência?

Não.

Ainda Respira!é uma coletânea de rock que reúne bandas do underground musical brasileiro. Aliás, é nele que sobrevivem ótimos grupos que têm muito a dizer sobre o mundo que nos rodeia, mas que a grande mídia prefere ignorar para dar lugar a aberrações musicais de fácil consumo, sem precisar sacrificar a massa cinzenta do grande público. A prova dessa alienação coletiva está na lista das músicas mais ouvidas nas rádios, tevês, plataformas de streaming, e por aí vai. O rock obviamente fica de fora, e qualquer outro gênero que produza algo substancial também sofre com a indiferença da mídia e do público consumidor. O futuro é pouco alentador, mas não o bastante para matar esse tal de Rock and Roll.

O fato de estar classificado como alternativo, contudo, não significa que o produto está mal apresentado. Muito pelo contrário. Barata Cichetto ofereceu aos adquirentes da Gatos & Alfaces o CD com capa rígida produzida artesanalmente, em forma de livreto contendo as letras de todas as faixas, exceto a instrumental Stellars, do Alpha III. Além do mais, nenhuma informação fica de fora, para total benefício de ouvinte/leitor/ouvinte.

Eis a lista das músicas… para “respirar”:

  1. Salário Mínimo – Fatos Reais;
  2. Blues Riders – Urgente;
  3. Kamboja – Sangrando;
  4. Tublues – Noite Longa;
  5. Baranga – TV Assassina;
  6. Barata Suicida – Lúcifer;
  7. Maquinários – Seis Milhas Para o Inferno;
  8. Carro-Bomba – Tortura;
  9. Lixo Suburbano – Acomodados;
  10. Uganga – Guerra;
  11. Mano Sinistra – A Balada de Zé Jesus;
  12. Flores do Fogo – O Rei;
  13. Project Dragons – Corruption;
  14. PsychoticEyes – Life;
  15. Imagery – Show Me;
  16. Alpha III – Stellars;
  17. D BightmareDreams –RoadsofDarkness; e
  18. Outro Destino – Apenas Uma História.

Cabe acrescentar que, já naquele longe e distante 2014, a frase “O Rock está morto” era regra à exceção (sim, nesta ordem). Barata Cichetto comenta, no livreto da coletânea, também replicado na edição da Gatos & Alfaces:

“É correto e justo pensarmos que o Rock está morto? Pode ser tão correto quanto pensar que o sonho acabou, que o amor acabou, que a poesia acabou. (…) Mas seria justo, afirmar que, especificamente o Rock, está morto?

Claro que não! Mesmo porque, o Rock, enquanto qualquer estilo musical é mutante, metamorfônico, cíclico e se auto recicla sob outras formas. E gera filhos, netos e bisnetos. Sua própria história nos diz isso, pois ao contrário da maioria dos estilos, não existe consenso ou precisão quanto à exatidão sua data de nascimento. Então começamos assim: o que não tem data de nascimento não terá data de morte. Simples assim.”

Mais adiante, trazendo o tema para as terras brasileiras, Barata Cichetto explica por que o Rock não se firmou como em outros países:

“(…) Mas, e no Brasil, como fica isso? Apesar de ter experimentado um período de glória criativa e relativa nos anos 1970, e de uma glória financeira também relativa nos anos 1980, o Rock no Brasil nunca foi, digamos, o estilo de música e comportamento de uma maioria”.

Infelizmente, Ainda Respira! não foi além do volume 1. A proposta do projeto era seguir a diante, com novas coletâneas que acompanhariam os números seguintes da Gatos & Alfaces. O pouco apoio recebido foi suficiente apenas para essa coletânea, de maneira que faltou fôlego ao industrioso Barata Cichetto para tocar o projeto. Isso está expresso na página “Agradecimentos e Lamentos”. No último caso, fica patente o comodismo dos artistas e bandas que não quiseram participar do projeto. Desconfio que esse mesmo comodismo impediu que o rock alçasse voos mais altos e garantisse uma lugar de maior destaque no caldo cultural brasileiro. A mediocridade agradece.

Por fim, e apesar de tudo, Ainda Respira! ao menos não morreu na praia. Além de mais, a coletânea prova que o Rock não morreu e ainda respira sem ajuda de aparelhos. Até quando, não sei.

Genecy Souza é um colecionador de livros, comerciário e mora em Manaus, AM

Ainda Respira
Organização e Produção: Barata Cichetto
Editor’A Barata Artesanal, 2015
Parte Integrante da Revista Gatos & Alfaces – 4

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