Resenha Literária – De Espantalhos e Pedras Também Se Faz Um Poema

As emoções em “de espantalhos e pedras também se faz um poema”, novo livro do historiador, professor e escritor Viegas Fernandes da Costa, começam quando a gente apanha nas mãos o volume de 66 páginas. E a primeira delas é a emoção causada pelo olfato: o livro tem um cheiro diferente, pois foi impresso em antigas máquinas de tipografia, cujas tintas têm um odor característico; continua com o tato, com as depressões e relevos provocados pelo “esmagamento” das fibras do papel pelos tipos de chumbo. As letras são tridimensionais, não apenas impressões digitais sem identidade, frias, estampadas a laser. As emoções não param e prosseguem com a visual, causada pela imperfeição e falhas na impressão no processo quase que manual, sem aquela “perfeição tecnológica” dos modernos – e frios – sistemas ligados à computadores. Portanto, antes mesmo de começarmos a ler “de espantalhos e pedras também se faz um poema”, somos conquistados pelas emoções, antes de saborear os poemas, sentimos o gosto da humanidade, tendo claro que foram seres humanos, gente, que construíram aquele livro. Tudo muito quente.

Então começamos a folhear e logo na introdução, escrita pelo próprio poeta, outro nocaute emotivo, nos alertando que estamos em uma sociedade de poucos sentimentos e muita tecnologia. Tecnologia demais, emoção de menos. “Já cansei de ouvir os arautos do fim do livro em seu porte tradicional: com páginas de papel, capa, autor e cheiro de mofo. Há de se instaurar o império do código binário, dos bits e chips, dessa coisa amorfa que ainda chamaremos de livro, mas sem o fetiche que este sempre carregou, sem este apelo tátil de pele sobre papel – ou vice-versa.” Escreve Viegas, para em seguida relatar a emoção sentida por ele ao acompanhar o processo de nascimento do livro, à emoção de “estar na presença física do livro”, que toma forma pelas mãos hábeis do tipógrafo experiente, que ali é uma espécie de comparsa do poeta, reescrevendo letra a letra seu poema. Tipos de chumbo, invertidos, segurados delicadamente com a pinça e encaixados um ao lado do outro em uma placa de metal. Letra por letra, símbolo por símbolo, os poemas tomam forma, corpo e fazem com que o sentimento e a verdade criadas pela mente e o coração do poeta, se transformem em sentimentos e verdades palpáveis com olfato e cor. “Sim, este livro existe além do livro.”  Prossegue o poeta, repórter do nascimento de sua própria criação, para depois assumir o papel de revolucionário que cabe a todos os poetas que o sejam por dom e ofício, a pretensão de ostentar tal título:  “Este livro, impresso na linotipo, é uma afronta aos livros pós-industriais, pós-modernos, pós-livros. Que assim seja!”  Amem!

No final da apresentação, Viegas sugere ao leitor um exercício de sentidos…. E assim fizemos e desta forma retornamos ao início do presente texto. Cumpramos, portanto sua sugestão e amemos “de espantalhos e pedras também se faz um poema”, façamos-lhe amor, “pois que ainda existe!”.

Quanto aos poemas em si, sendo eu também um pedreiro das palavras, poeta também de ofício, que irei comentar. Poemas não são para serem analisados, nem criticados, nem entendidos: poemas são para serem sentidos. E no caso de “de espantalhos e pedras também se faz um poema”, os poemas são para serem sentidos não apenas pela emoção causada pelas palavras que criam sensações, mas pelo tato, pelo olfato, pela visão. E a uma única frase possível: de tipos e chumbo também se faz um poema… ou vários… não é mesmo Viegas? Não é mesmo, Sr. Bernardo?

Autor: Viegas Fernandes da Costa, Poemas
2008 – Cultura em Movimento – 66 Páginas

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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