Resenha Literária – Inácio de Loyola Gomes Bueno e A Consciência da Espécie

Há um tempo atrás, por intermédio do amigo Ricardo Alpendre tomei conhecimento da edição do livro “O Futuro Começou”, de Inácio de Loyola Gomes Bueno, pai de Marcelo Bueno, criador e guitarrista da banda Tomada, um ex-padre católico, falecido em 2007. Mas apenas há coisa de um mês atrás foi que chegou ás minhas mãos O Futuro Começou , um “livreto” como o próprio autor define.. Ávido pelo tema comecei a ler as apenas (?) 64 páginas, que demorei cerca de duas semanas para concluir, pois não se trata de um texto para ser lido assim, correndo, entre um e outro afazer. É para ser lido, voltando páginas, analisando, relendo, pensando.

E “O Futuro Começou” abre com uma pergunta “Por quê?”. Escrito logo após os atentados de 11 de Setembro de 2001, Inácio tenta responder a essa pergunta que aflige atualmente todos aqueles seres pensantes, preocupados com o futuro da humanidade., ao mesmo tempo em que afirma, logo no início: “O que nos interessa não são mais palavras nesta nossa sociedade palavrosa, cheia de conceitos e preconceitos… O que nos interessa são realidades verdadeiramente positivas…” E acima de uma fácil critica á globalização, Inácio não a renega nem a demoniza, mas a propõe de forma consciente, onde os pobres não fiquem apenas com a fome e a miséria como dividendo.

Quase da mesma forma que Milton Santos, geógrafo e pensador, também falecido, Inácio Bueno ataca fundo a base dos problemas que geram o atual estado da humanidade: o excesso de individualismo em detrimento do coletivo, que nos levou, segundo sua definição, a um túnel escuro que nos asfixia e cuja única saída é com uma “Nova Consciência”. Mas não aquela pregada pelos “hippies” dos anos 60/70, mas sim através do repensar nossas atitudes concretas, exatas, práticas. “Nem tudo, portanto, está perdido. O tesouro escondido aí está, à nossa espera, à espera de nossa consciência.” E tal José Saramago, aponta o dedo na ferida de uma falsa democracia criada sobre bases erradas e que serve apenas a interesses de grandes grupos financeiros.

Um momentos que mais chamaram minha atenção está no Capítulo 3, onde Inácio Bueno nos coloca dentro desse túnel afirmando que “O Ocidente que se pretende a cultura mais importante e dominante do planeta (…) não pode furtar-se a esta tarefa maior de construir, na igualdade da espécie com todas as outras culturas e povos, a cultura universal de convívio numa paz e numa complementariedade, que não tem nada de concessão, de boa vontade, de paternalismo, mas tudo de realidade concreta, de direito natural, de possibilidades indiscutíveis imediatas.” E arremata de forma brilhante; “O cimento nesta nova cultura é o respeito à igualdade essencial.”

Ao falar sobre o óbvio que não percebemos, de tão envolvidos com nós mesmos, fechados dentro de nossos próprios egos, Inácio coloca a humanidade inteira, sem restrições como culpada de seu próprio destino, esquecermo-nos que somos compostos não apenas de uma, mas de duas partes: uma que nos dá a consciência individual e a outra que nos dá a consciência de espécie. E que somos então, na verdade apenas metade de seres humanos.

No final, Inácio Bueno propõe uma revolução, completa, verdadeira, e definitiva: a Revolução da Consciência, pela destituição da consciência individualista e constituição da real consciência da espécie, com valores assumidos e praticados por todas as pessoas do mundo, revendo todos os nossos conceitos. E deixa como sugestão final a criação do Fórum Universal da Espécie Humana, como forma de despertar a Consciência Universal da Espécie.

Ao iniciar este texto, não sendo eu nenhum literato ou mestre em “literatices”, ou versado em alguma ciência política, pretendia apenas traçar um paralelo entre a obra de Inácio de Loyola Gomes Bueno e sua rica, desprendida e produtiva existência. Afinal, o autor foi membro da Companhia de Jesus, Padre Diocesano afastado da Igreja por comprometimento com problemas sociais na época do triste e sangrento regime Militar Brasileiro, afastado por pressão militar tendo sido forçado a exilar-se na França onde permaneceu durante oito anos onde cursou Sociologia e por intermédio de uma bolsa, ter ido a Tanzânia e posteriormente ingressado no Curso de Psicanálise existencialista em Paris e ao retornar ao Brasil ter passado por inúmeras dificuldades, tentando retornar ao ministério sacerdotal e passando a exercer a psicanálise, sempre atendendo generosamente a todos que o procuram.

Com tantas características tão fortes, marcantes, e uma vida dedicada a humanidade, entretanto fiquei pasmo quando, ao buscar alguma informação complementar sobre Inácio, com exceção uma referencia em um sebo que comercializava o livro, nenhuma informação existia em um dos maiores “motores” da globalização, o Google. Seria apenas uma triste coincidência? A mesma “coincidência”, que retirou a “gloria” de Nikola Tesla como o descobridor e inventor? A mesma que o Império Romano, que adotara o cristianismo como religião oficial tentou apagar da história o “concorrente” de Jesus Cristo, Apolônio de Tíana? A mesma “coincidência” que atinge, atingiu e atingirá grandes seres humanos que lutam em prol da humanidade? Afinal, Ignácio de Loyla Gomes Bueno era, segundo suas próprias palavras, “apenas um brasileiro anônimo e obscuro, como soem ser os anônimos.”

Em 2000 sofreu um AVC, seguido por várias doenças e em 2001 escreveu este “O Futuro Começou”. E em 29 de Junho de 2007, Inácio Bueno faleceu mas deixou, como todo “anônimo obscuro” , um legado de humanidade que irá permanecer dentro daqueles que tomarem para si suas palavras e principalmente suas ações. A Revolução que pregastes, Inácio, começou dentro de mim, e espero que dentro de todos aqueles que também de sua fonte inesgotável de humanidade beberem.

27/11/2011

O Futuro Começou
Autor: Inácio de Loyola Gomes Bueno
Resumo: Ensaio
Ano: 2008
Páginas: 64

 

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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