Setenta, a Década do Rock no Brasil

A apresentação de Alice Cooper no Brasil, a primeira de um artista de Rock internacional no Brasil, abriu as portas, os portos e principalmente aeroportos brasileiros, não nos moldes imperiais da pena de dãojoão, ao movimento de Rock no Brasil. O Rock e seus passos endiabrados embora tenham chegado à Ilha do Brasil quase que simultaneamente em meados dos anos 1950, passara, desde o golpe militar de 1964 a ser enquadrado como perigoso, por trazer mensagens que de dentro dos quartéis eram entendidas como pura e absoluta “baderna e subversão”. Disso resultou um retardamento na entrada da Cultura ligada ao Rock que explodira na Europa e EUA na segunda metade dos anos 1960.

A partir de janeiro de 1974, entretanto, pouco menos de cinco anos depois do maior festival de Rock da história da humanidade, Woodstock, chega por aqui uma banda que para época era considerada escandalosa, com um vocalista usando nome de mulher, estraçalhando bonecas, sendo decapitado e enrolando cobras no pescoço. Alice Cooper. O local, um monstro de metal e concreto recém inaugurado e destinado a exposições comerciais, como o suntuoso Salão do Automóvel. Milhares de garotos e garotas, incluindo eu mesmo, pernoitaram na porta esperando o momento da entrada. Tumulto, empurra-empurra, e na apresentação o que é lembrado pela maioria, é apenas o fato de Alice estar usando botas de canos e saltos enormes e o fato de ter se comunicado com a platéia em um sofrível… espanhol. “Caliente!”

Daí, “caliente” como uma febre, o Rock tomou as cabeças da molecada e o Rock passou a ocupar lugar de destaque nas famílias, senão na sala, mas ao menos nos quartos dos garotos, quando esses o tinham, das empregadas quando tinham e das garagens, também quando tinham. Mas o que tinham mesmo era um desejo enorme de tocar um instrumento e subir num palco, por menor que seja, pois o importante era o Rock e sua mensagem e não necessariamente o estrelato, que de fato, ao menos à imensa maioria das bandas nunca atingiu. Embora bandas que já existissem até então, como o Made In Brazil na estrada desde 1967 tivessem um status de semi-estrelas, aparecendo na TV e em revistas “jovens”, apenas outras pouquíssimas, como foi o caso do Casa das Maquinas e Joelho de Porco alcançaram tal prestígio. Essas duas, bancadas pela Som Livre, braço fonográfico da Globo. O Casa das Máquinas teria um futuro possivelmente brilhante não fosse um episódio lamentável ocorrido na TV Record, onde foi morto um funcionário, terminando precocemente a carreira da banda. Já o Joelho de Porco, nunca decolou na mídia, porque era uma banda especialmente performática, fantástica ao vivo, mas que, apesar das letras humorísticas, em disco não tinha a mesma força.

O Rock ia bem sim. Por todos os cantos aconteciam festivais ao ar livre, como Águas Claras, o primeiro Hollywood Rock e outros tantos que tentavam imitar a loucura de “Paz e Amor” e liberdade de Woodstock, dentro ainda de uma realidade política adversa e cruel, pois a ditadura militar ainda duraria, ao menos oficialmente, até 1979. Letras eram censuradas, discos recolhidos, capas mudadas e artistas presos. Eram anos de chumbo e sangue e para o Rock não era diferente por aqui. E como qualquer censura, os estenótipos dos seguidores faziam suas vitimas, estigmatizando e punindo-os socialmente. Tidos como drogados, preguiçosos e porcos, os roqueiros seguiam em frente, criando em cima do caos e sonhando em cima do sonho americano e ao som do Big Ben. A molecada queria criar, tocar, transar e buscar uma liberdade que sequer sabia exatamente qual era, mas que devia ser boa, afinal. Idealismos capitalistas e sonhos socialistas faziam a salada cultural e política.

Dentro desse cenário, surgiram centenas de bandas de Rock. O progressivo, com forte influência européia, particularmente italiana e alemã, era a bola da vez pelas terras da Ilha do Brasil e, mesmo com a precariedade de instrumentos, cuja importação era proibida, começaram a criar o que muitos, incluindo a mim mesmo, acreditaram ser a nova musica do Brasil. Do nordeste, particularmente surgiram dignos exemplares dessa revolução, nas vozes, instrumentos e ritmos de artistas como Alceu Valença, Zé Ramalho, Belchior e outros que faziam a delicia de nossos ouvidos. “Vivo” de Alceu Valença é um dos melhores discos de Rock já feitos no Brasil. O primeiro disco de Zé Ramalho é outro. “Alucinação”, segundo disco de Belchior, embora não seja um disco de Rock musicalmente falando, é lotado de referencias roqueiras e era indistintamente curtido por roqueiros de todas as matizes.

Aliás, falando em matizes, até então, embora se soubesse a distinção, por exemplo, entre “Rock Pauleira”, “Viagem” e “MPB”, não existiam nenhum tipo de rusga, cisão ou separação entre seus seguidores. Todos éramos tudo e tudo era todos, se é que me entendem. Mas isso até apenas meados de 1977, quando chegou quase que imediatamente após o movimento original na Inglaterra, o “Punk Rock”. Aí a coisa ficou literalmente feia.

O Punk foi um movimento que, embora tenha nascido fruto de uma situação caótica na Inglaterra, com desemprego em massa entre outras coisas, foi expandido por motivos bem menos nobres, como o comércio de roupas rasgadas por uma loja de moda chamada “Sex”, de fato os criadores da Sex Pistols, cujos membros eram apenas garotos propaganda da grife.

No Brasil, embora em termos econômicos houvesse uma massa de desempregados talvez até maior que na terra da Rainha, a inquietação não se refletiria a ponto de criar um movimento cultural. E assim, apenas a “necessidade” de se copiar mais um movimento externo fez garotos imberbes e nem tanto, usar penteados moicanos, encher as roupas de alfinetes e espancar hippies. Como o Punk pressupunha que não era preciso saber mais que três acordes, a turba sai, de instrumento na mão esbravejando à moda inglesa, contra o sistema opressor. Por aui não tinha rainha e se nos falassem mesmos termos sobre o presidente estavam ferrados. E decerto usariam coturnos em outro lugar que não nos pés. Próximo à boca! E como tudo eram cópias da matriz, vieram o ódio a tudo que pudesse cheirar bem, inclusive os corpos. Vieram as brigas sem sentido e as explosões de violência gratuita. Aliás, violência sempre é gratuita, mas para os Punks isso parecia fazer parte da musica, do movimento. Enfim, o resultado disso é que poucos anos depois, quatro ou cinco no máximo, o chamado Movimento Punk se esvaziou, se é que algum dia esteve cheio.

Mas o mal pior é que, a partir dai que foram criadas as divisões dentro do movimento que antes conglomerava todas as tribos e todos objetivos eram comuns. O chamado Exército do Rock foi rachado em centenas de pedaços, de denominações, tribos menores e aldeias. Um acorde diferente, um botão a mais na blusa, um fio de cabelo de outra cor, passaram a rachar, sempre em pedaços cada vez menores, não apenas a cultura do Rock no Brasil. E ela que já não era tão sólida, foi se desfazendo, se liquidificando até escorrer completamente pelo ralo.

A partir dos anos 1980, com o chamado BR Rock e o Rock In Rio, a mídia serviu-se do Rock como carne da vez e se estabeleceu uma era de ouro, literalmente. Comercialmente foi a melhor época para as bandas e artistas, mas em termos de criatividade, cultura e engenhosidade foi uma era inútil e infantil. O Pós-Punk, o Gótico e uma centena de variantes surgiram com tudo. E com raras boas exceções, o que aconteceu foi uma verdadeira comédia de erros, um pastiche de tudo que tinha sido feito durante os anos anteriores. Portanto, restrinjo meu depoimento aos anos 1970, que em meu entender foram os mais criativos e engenhosos do Rock brasileiro.

12/04/2013

Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal do ano da Graça do nascimento de Bruce Dickinson, Madonna, Michael Jackson, Cazuza e Tim Burton, é poeta, romancista, ensaista e contista, além de produtor de eventos e artista plástico. Cresceu escutando Beatles, Black Sabbath, Rush e Pink Floyd. Participou da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos deixou de ser poeta e foi tentar ser homem, o que no entender de Bukowski é bem mais difícil. Trabalhou como office-boy, bancário e projetista de brinquedos. Apesar de ter escrito milhares de textos nunca ganhou um prêmio literário. Foi apaixonado por Janis Joplin, Grace Slick  e Patti Smith; casou quatro vezes e Atualmente procura pagar as contas trabalhando com criação de sites, edição e diagramação de livros e arte digital.

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